Pesquisadores de Montevidéu e São Paulo apresentaram estudos sobre toxoplasmose, suscetibilidade a doenças, influenza, vírus emergentes e novas estratégias de vigilância em populações humanas, animais e no ambiente.
As apresentações científicas da manhã do primeiro dia do IPSP & IPMon – A Pasteurean Scientific Meeting (16/09) mostraram diferentes estratégias para compreender, detectar e antecipar doenças infecciosas. Na sessão intitulada “One Health, Emergência Viral e Vigilância Ambiental”, pesquisadores do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) e do Institut Pasteur de Montevideo (IPMon) apresentaram trabalhos que vão da diversidade genética de parasitas e da análise multiômica de populações à vigilância de influenza em águas residuais e à busca de vírus emergentes em animais silvestres e urbanos.
Pelo Institut Pasteur de Montevideo, Maria E. Francia mostrou como o conhecimento sobre a diversidade do Toxoplasma gondii pode ser convertido em soluções voltadas à saúde animal. Seu grupo estuda especialmente a transmissão vertical do parasita, da mãe para o feto, e as diferenças existentes entre cepas que circulam em diferentes regiões.
O laboratório utiliza organoides placentários, modelos animais, genômica funcional e ferramentas como CRISPR/Cas9 para investigar quais fatores do parasita e do hospedeiro determinam a capacidade de atravessar a placenta e estabelecer a infecção. Os pesquisadores também demonstraram que cepas locais podem ter comportamentos bastante distintos em termos de crescimento, virulência e capacidade de produzir infecção crônica.
Essa diversidade passou a ser explorada de forma aplicada. O grupo desenvolveu uma ferramenta diagnóstica para toxoplasmose ovina utilizando cepas locais, com o objetivo de melhorar a capacidade de identificar infecções na região. Outra frente utiliza componentes conservados do mecanismo de invasão celular do Toxoplasma para desenvolver uma estratégia vacinal experimental destinada a reduzir a transmissão vertical em animais.
A pesquisadora Natalia Rego, também do IPMon, abordou outro desafio: como integrar genômica, transcriptômica e dados clínicos para compreender diferenças de suscetibilidade a doenças. Um dos exemplos apresentados foi o estudo de pessoas infectadas pelo HIV que conseguem manter a carga viral muito baixa ou indetectável sem tratamento antirretroviral. As análises sugerem a existência de mecanismos de restrição viral capazes de controlar o vírus sem provocar uma resposta inflamatória intensa.
Rego mostrou ainda como a multiômica pode ampliar a capacidade diagnóstica em doenças raras, combinando sequenciamento de DNA e RNA, informações clínicas e ferramentas computacionais. Um ponto central de sua apresentação foi a necessidade de considerar a ancestralidade genética das populações. Bancos de referência construídos predominantemente com indivíduos europeus podem produzir interpretações inadequadas quando aplicados a populações miscigenadas.
Nesse contexto, ela apresentou o LatinCells, consórcio criado para ampliar a representação latino-americana em estudos imunológicos e genômicos. O projeto reúne participantes de oito países e mais de 2,5 milhões de células imunes analisadas individualmente. Os dados mostram que a ancestralidade genética deixa marcas mensuráveis no funcionamento do sistema imune.
A partir dessa base, o grupo pretende avançar da caracterização de populações saudáveis para o estudo da doença. Um dos novos projetos vai investigar de que maneira a síndrome metabólica modifica o sistema imune e pode aumentar a vulnerabilidade a infecções, integrando coortes do Uruguai e do Brasil.
Institut Pasteur de São Paulo
Pelo Institut Pasteur de São Paulo, Angélica Campos abriu a sequência científica abordando a vigilância de vírus influenza em aves, morcegos e outros animais dentro da perspectiva de One Health. Ela mostrou como a influenza pode circular entre diferentes espécies e destacou o papel de aves migratórias e outros reservatórios na dispersão de vírus.
A pesquisadora apresentou mecanismos de evolução da influenza, como antigenic drift e antigenic shift, e destacou a importância da vigilância de vírus como o H5N1. Seu projeto prevê coleta de amostras em animais, análises moleculares e estudos filogenéticos para identificar vírus circulantes e avaliar riscos de transmissão entre espécies.
A vigilância de influenza também esteve no centro da apresentação de Rúbens Alves, mas a partir de outro ambiente: as águas residuais. O pesquisador mostrou que amostras de esgoto podem fornecer informações sobre a circulação de vírus em grandes populações, inclusive entre pessoas assintomáticas ou que não procuram serviços de saúde.
Em uma comparação entre métodos, a PCR digital apresentou maior capacidade de detecção de influenza A e B do que a RT-qPCR convencional. A rede monitorada pelo grupo, em parceria com a CETESB, analisou centenas de amostras em diferentes pontos do estado de São Paulo. Segundo os dados apresentados, em determinados locais o aumento do sinal viral nas águas residuais antecedeu o pico clínico em até algumas semanas.
O projeto está avançando também para a caracterização genômica dos vírus encontrados no esgoto e para a criação de uma plataforma capaz de monitorar aproximadamente 200 vírus de RNA e DNA na mesma rede de coleta. A proposta é que a infraestrutura sirva como sistema sentinela permanente, permitindo alterar os patógenos monitorados de acordo com os riscos epidemiológicos.
A diversidade viral da fauna silvestre brasileira foi o tema de Gustavo Góes. Seu grupo realiza expedições de campo para coletar amostras de morcegos, marsupiais e outros mamíferos e investigar vírus ainda pouco conhecidos. Entre os resultados apresentados estão diferentes coronavírus encontrados em morcegos brasileiros, alguns geneticamente relacionados a grupos que incluem vírus de importância médica, além de paramixovírus, hantavírus e arenavírus.
Mais do que descobrir novos vírus, o objetivo é avaliar seu potencial zoonótico: verificar se conseguem infectar células humanas, replicar-se nelas, escapar da resposta imune e eventualmente representar risco de emergência. O trabalho ganha relevância em um país como o Brasil, onde elevada biodiversidade, transformação ambiental e crescente contato entre pessoas e animais silvestres criam condições para eventos de transmissão entre espécies.
Fechando esse conjunto, Robert Andreata-Santos apresentou uma estratégia de vigilância voltada aos roedores urbanos. Seu laboratório estuda principalmente Rattus rattus e Rattus norvegicus, animais que vivem em estreito contato com a população humana e podem atuar como sentinelas de circulação viral nas cidades.
Além da captura de animais e análise de tecidos, o grupo começou a utilizar fezes encontradas em áreas infestadas como fonte de vigilância ambiental. Nos resultados preliminares, foram detectados astrovírus em parte das amostras e coronavírus em roedores coletados em Salvador, em colaboração com pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
O projeto pretende integrar esses dados com informações clínicas humanas, características ambientais e indicadores sociais, como renda, saneamento, densidade populacional e sazonalidade. A perspectiva é utilizar bioinformática e inteligência artificial para produzir mapas de risco e transformar a vigilância de roedores urbanos em uma ferramenta de apoio à saúde pública.
Em conjunto, as apresentações mostraram abordagens complementares para um mesmo desafio: identificar riscos antes que eles se transformem em emergências sanitárias, seja acompanhando vírus em animais, no ambiente ou em populações humanas, seja desenvolvendo ferramentas capazes de interpretar melhor a diversidade biológica e genética da região.