Curso internacional reuniu cientistas, médicos e representantes de organismos globais para discutir não apenas o desenvolvimento, mas os obstáculos reais à aplicação de vacinas no mundo
“Não foi um curso sobre vacina como a gente costuma ver — só imunologia e tecnologia. Foi sobre como uma vacina, de fato, chega até as pessoas.” A percepção é da doutoranda Raquel de Oliveira Souza, do grupo de Vigilância Genômica e Inovação em Vacinas do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP), que passou um mês em Paris participando do Curso de Vacinologia do Institut Pasteur, entre 16 de fevereiro e 13 de março de 2026, com bolsa Calmette & Yersin do Institut Pasteur.
Ao longo da formação, que reuniu participantes de diferentes países e áreas — da pesquisa básica à atuação em organismos internacionais —, um dos principais diferenciais, segundo Raquel, foi a abordagem ampliada da vacinologia, incluindo dimensões sociais, políticas e logísticas frequentemente pouco exploradas na formação científica.
“O curso mostra que existe um ‘gap’ entre desenvolver uma vacina e conseguir aplicá-la em humanos. Muitas candidatas ficam nesse limbo. Lá, a gente discutiu exatamente como atravessar esse caminho”, afirma.
Do laboratório ao mundo real – O curso foi estruturado como uma imersão completa na cadeia de desenvolvimento de vacinas. Ao longo de três módulos, os participantes percorreram desde fundamentos como epidemiologia, modelagem de transmissão e resposta imune até etapas avançadas, como descoberta de antígenos, plataformas vacinais, ensaios clínicos e produção em boas práticas de manufatura. Também foram abordados aspectos como: logística de distribuição, acesso global, economia da vacinação e hesitação vacinal.
Na prática, um dos aspectos que mais chamou a atenção da pesquisadora foi o contato com diferentes realidades de aplicação das vacinas.
Segundo ela, isso ampliou a compreensão sobre como a vacinação ocorre em contextos distintos. “Conversar com pessoas que atuam na África, por exemplo, muda completamente a percepção sobre acesso, adesão e estratégias de vacinação”, diz.
Formação com atores globais – O curso contou com palestrantes ligados a instituições como WHO, CEPI, Sanofi, Imperial College, Baylor College of Medicine, Takeda, AstraZeneca, Pfizer, PATH e Gates Foundation, além de pesquisadores do próprio Institut Pasteur.
Além das aulas, os participantes foram divididos em grupos para desenvolver propostas completas de vacinas, desde a escolha do antígeno até o desenho de ensaios clínicos e definição de populações-alvo. “A gente teve que tomar decisões reais: onde testar, qual população escolher, quais critérios usar para avançar ou interromper o desenvolvimento. Isso aproxima muito da realidade”, afirma.
Rede, estratégia e ferramentas – Outro aspecto central da experiência foi a construção de redes internacionais — algo que, segundo a pesquisadora, é determinante para que projetos avancem.
“Você aprende que desenvolver vacina não é só ciência. É saber quem procurar, como estruturar um projeto e como conectar diferentes áreas. Sem isso, a vacina não sai do papel.”
Natural do Rio de Janeiro, Raquel de Oliveira Souza é formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Iniciou sua trajetória no IPSP como bolsista de treinamento técnico e, após mestrado em Parasitologia no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, retornou à instituição para o doutorado.
Atualmente, desenvolve pesquisas com vacinas para influenza sazonal, incluindo H1N1 e H3N2, sob orientação do pesquisador Rubens Alves, no programa de Biotecnologia da USP.