Abordagem inovadora foca na modulação da célula humana — e não da bactéria — para abrir caminhos a novas terapias em um cenário marcado pelo avanço de cepas multirresistentes.
O Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) deu início, em dezembro de 2025, à implementação de uma plataforma de screening de alta vazão baseada em imagem, capaz de testar milhares de compostos por rodada e quantificar, de forma automatizada e sem viés do operador, como cada um afeta a dinâmica da infecção bacteriana. O projeto, centrado no Staphylococcus aureus, é liderado pelo pesquisador Caio Haddad Franco, selecionado no âmbito do acordo de cooperação entre a FAPESP e o Institut Pasteur de Paris, que financiarão as atividades pelos próximos quatro anos, os chamados grupos G4.
Serão testados cerca de 2.000 compostos, com prioridade para produtos naturais derivados da biodiversidade brasileira — uma fonte estratégica devido à riqueza de estruturas químicas inéditas e altamente bioativas. Franco lembra que, globalmente, quase 70% dos fármacos aprovados entre 1980 e 2019 têm origem ou inspiração em produtos naturais, reforçando o potencial desse tipo de abordagem.
Mudança de paradigma – O projeto inaugura no IPSP uma estratégia emergente para patógenos como o Staphylococcus aureus: em vez de mirar diretamente na bactéria, o objetivo é interferir nos processos celulares que ela usa para invadir, sobreviver, se multiplicar e persistir dentro das células humanas. É uma abordagem alternativa que atua diretamente no hospedeiro, testando compostos de forma ampla, sem escolher previamente um alvo celular específico — primeiro selecionando os compostos mais promissores que alteram os padrões da infecção nas células e, depois, investigando o mecanismo molecular associado ao fenótipo observado.
“O foco do projeto não é na bactéria em si, mas nos mecanismos e estruturas celulares do hospedeiro que ela subverte para sobreviver dentro das células humanas. Buscamos compostos capazes de impedir a invasão, a replicação ou a persistência intracelular do S. aureus — etapas decisivas para infecções crônicas e refratárias”, explica Franco.
O pipeline terá duas etapas complementares. No screening primário, os compostos serão testados em células humanas infectadas para identificar aqueles que interferem na infecção intracelular. Depois, o mesmo conjunto de compostos será avaliado em um screening secundário na bactéria isolada. Essa segunda etapa permite distinguir compostos que atuam como antibióticos convencionais daquelas que realmente modulam a célula hospedeira. Posteriormente, ensaios confirmatórios e estudos de mecanismo de ação com compostos selecionados servirão de base para avançar os candidatos mais promissores para testes em modelo animal.
Desafio do S. aureus – Nos últimos 20 anos, pesquisas têm mostrado que o Staphylococcus aureus — antes considerado um patógeno essencialmente extracelular — consegue invadir células humanas e aproveitar esse ambiente como um reservatório protegido. A permanência intracelular está associada tanto à dificuldade de erradicação quanto à cronicidade das infecções, já que muitos antibióticos não penetram nas células ou atingem concentrações limitadas dentro delas.
Ao atuar sobre processos do hospedeiro que permitem essa invasão e sobrevivência, a abordagem proposta por Caio Franco busca preencher justamente essa lacuna, fortalecendo o efeito de antibióticos convencionais e reduzindo o risco de surgimento de resistência.
Amplamente presente na pele e nas fossas nasais, o S. aureus é uma bactéria oportunista capaz de causar desde infecções superficiais até quadros graves, como pneumonias e sepse. Embora historicamente associado ao ambiente hospitalar, hoje circula com intensidade também na comunidade. A combinação entre ampla disseminação e crescente resistência antimicrobiana torna o cenário particularmente preocupante, destaca Caio.
“O Staphylococcus aureus é uma das bactérias que mais contribuem para mortalidade e morbidade no mundo, e uma das mais preocupantes no surgimento de variantes multirresistentes. Em alguns casos, aparecem cepas tão resistentes que já se comportam como os chamados superbugs, capazes de escapar praticamente a todos os antibióticos disponíveis — um cenário extremamente sério do ponto de vista clínico e de saúde pública”, afirma Franco.
Trajetória acadêmica – Com 14 anos de experiência em descoberta de fármacos e screening de alta vazão, Caio Haddad Franco construiu uma carreira que combina tecnologia de ponta e investigação em doenças infecciosas. Formado em Engenharia de Bioprocessos pela UNESP/Assis, iniciou sua trajetória internacional ainda na graduação, durante um estágio no Institut Pasteur da Coreia do Sul, trabalhando com triagem de compostos contra protozoários — experiência que o levou diretamente ao doutorado no LNBio/CNPEM, em parceria com a Unifesp, onde focou seus estudos na descoberta de novas drogas para o tratamento da Doença de Chagas. Neste período, também teve a oportunidade de integrar um consórcio europeu responsável pelo maior screening de compostos naturais já feito contra doenças tropicais negligenciadas.
Depois, realizou pós-doutorado no ICB-USP em colaboração com a Eurofarma, desenvolvendo modelos de triagem para moléculas voltadas ao tratamento de infecções bacterianas associadas a formação de biofilmes. Desde 2019, na Universidade de Coimbra, aprofunda pesquisas em mecanismos intracelulares de infecção por S. aureus e Salmonella, utilizando tecnologias de interferência de RNA e microscopia de alto conteúdo.
“Trabalhar com screening desde a graduação me permitiu transitar por diferentes patógenos, tecnologias e abordagens. Agora, levo essa expertise para construir no IPSP uma plataforma sustentável, colaborativa, criativa e capaz de competir em inovação com centros internacionais”, afirma.