As apresentações conectaram pesquisa básica, computação e desenvolvimento tecnológico em busca de novas respostas para problemas de saúde humana e animal.
A programação da tarde do segundo dia do evento “Institut Pasteur de São Paulo & Institut Pasteur de Montevideo: A Pasteurean Scientific Meeting”, realizado entre os dias 16 e 18 de setembro na Universidade de São Paulo (USP), reuniu pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novas estratégias em vacinas, engenharia viral, antivirais e modelagem computacional, com aplicações em problemas de importância para a saúde humana e animal.
O pesquisador Matias Machado, do Institut Pasteur de Montevideo (IPMon), apresentou uma plataforma baseada em engenharia de proteínas para o desenvolvimento de vacinas de subunidades. Ele mostrou como ferramentas de bioinformática e inteligência artificial estão sendo empregadas para projetar antígenos mais estáveis e imunogênicos, com foco especial em uma vacina contra o carrapato bovino Rhipicephalus microplus.

Matias Machado (IPMon)
Os resultados apresentados demonstraram ganhos expressivos de estabilidade das proteínas projetadas e níveis elevados de eficácia em estudos de campo realizados no Uruguai, evidenciando o potencial da combinação entre engenharia molecular e pesquisa aplicada para enfrentar problemas sanitários de relevância econômica para a pecuária.
Alvaro Fajardo discutiu diferentes estratégias de engenharia genética aplicadas a vírus de RNA. Utilizando modelos como coxsackievírus, vírus Mayaro e influenza A, o pesquisador mostrou como alterações genéticas direcionadas podem reduzir a virulência viral, restringir a replicação a determinados tecidos ou transformar vírus em ferramentas para pesquisa biomédica. Entre os exemplos apresentados estiveram abordagens baseadas na modificação de códons para produzir vírus atenuados, no uso de microRNAs para regular a replicação viral e na construção de vírus repórteres capazes de acompanhar a dinâmica das infecções em modelos experimentais.
Já a palestra ministrada por Martin Flo abordou pesquisas sobre retrovírus, com destaque para o vírus da leucemia bovina (BLV). O pesquisador descreveu esforços para compreender os mecanismos moleculares envolvidos na infecção viral e identificar novos compostos capazes de bloquear a atividade da protease viral, enzima essencial para a maturação dos vírus. Os estudos combinam caracterização estrutural de proteínas, triagem computacional e experimental de moléculas e ensaios celulares para identificar candidatos promissores a antivirais. O conhecimento obtido com o BLV também está sendo utilizado para orientar pesquisas voltadas ao HTLV, retrovírus humano para o qual a apresentação destacou a necessidade de novas estratégias terapêuticas.
Sergio Pantano apresentou pesquisas que utilizam modelagem molecular e simulações computacionais para investigar flavivírus como dengue, zika, West Nile e vírus da encefalite japonesa. A palestra destacou a importância de compreender não apenas a estrutura dessas partículas virais, mas também sua dinâmica molecular ao longo do tempo. As simulações permitiram investigar diferentes níveis da organização viral, desde a interação do genoma com estruturas virais até a dinâmica de proteínas e o comportamento dos lipídios do envelope, revelando fatores associados à estabilidade das partículas e ao reconhecimento pelo sistema imune. O pesquisador também apresentou estratégias para prever mutações capazes de atenuar vírus de forma racional, com potencial aplicação no desenvolvimento de vírus atenuados e de estratégias vacinais.
Encerrando a participação do IPMon na sessão, Alicia Costábile discorreu sobre a construção de capacidades locais para o desenvolvimento de vacinas de RNA mensageiro na América Latina. A pesquisadora apresentou os avanços de uma plataforma própria de mRNA desenvolvida no instituto, utilizando o vírus Mayaro como modelo experimental. O trabalho envolve o desenho e a produção de moléculas de RNA, sua purificação e encapsulamento em nanopartículas lipídicas, etapa fundamental para a entrega eficiente do material genético às células.
A apresentação destacou ainda estratégias para otimizar a estabilidade e a imunogenicidade dos antígenos virais por meio de engenharia molecular, além do desenvolvimento de abordagens baseadas em RNA circular, uma tecnologia que pode ampliar a estabilidade das moléculas e prolongar a produção de proteínas no organismo. Segundo a pesquisadora, a iniciativa busca fortalecer capacidades locais e regionais para o desenvolvimento de vacinas e outras aplicações terapêuticas baseadas em RNA.
A tarde do segundo dia também contou com a participação do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP). Lizdany Flórez-Álvarez, do grupo de C. Wrenger, tratou de uma estratégia de desenvolvimento racional de fármacos contra o SARS-CoV-2 baseada no direcionamento da proteína E, uma das proteínas estruturais mais conservadas dos coronavírus. A pesquisadora mostrou que essa proteína exerce papel central na montagem de novas partículas virais, na modulação de processos celulares e na patogênese da COVID-19.
Utilizando ferramentas de modelagem molecular e triagem computacional, o grupo avaliou mais de 800 mil moléculas em busca de compostos capazes de interferir na atividade da proteína E. Os resultados levaram à identificação de candidatos com atividade antiviral significativa, incluindo um composto capaz de reduzir de forma expressiva a replicação do vírus em células humanas. A pesquisa também demonstrou que a molécula interfere em mecanismos celulares associados à infecção, ajudando a reverter alterações celulares provocadas pela proteína E.