Candidato a medicamento contra obesidade já testado em humanos, molécula com potencial antiviral contra o vírus sincicial respiratório e novas abordagens para superar a persistência do Trypanosoma cruzi estiveram entre os destaques do terceiro dia do IPSP & IPMon – A Pasteurean Scientific Meeting.
Uma molécula desenvolvida a partir de estudos sobre metabolismo energético e que já ultrapassou a fronteira entre a bancada e os primeiros testes em humanos foi um dos destaques do terceiro e último dia do IPSP & IPMon – A Pasteurean Scientific Meeting. Realizado no Centro de Difusão Internacional da Universidade de São Paulo (USP), o encontro reuniu pesquisadores do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) e do Institut Pasteur de Montevideo (IPMon), entre os dias 16 e 18 de setembro. A programação do dia foi dedicada à descoberta de terapias, plataformas de pesquisa e inovação translacional.
Uma nova via contra a obesidade
O caso foi apresentado por Carlos Escande, do Institut Pasteur de Montevideo, que contou a trajetória do MVD-1, inicialmente chamado SANA, e da EOLO Pharma. O projeto começou quando pesquisadores procuravam compostos capazes de reduzir a inflamação associada à obesidade. Nos experimentos com camundongos, porém, uma das moléculas produziu um resultado inesperado: além dos efeitos metabólicos, os animais perderam peso. A equipe decidiu investigar o achado e verificou melhora de alterações associadas à obesidade e à síndrome metabólica, entre elas intolerância à glicose e alterações hepáticas.

Carlos Escande (IPMon)
A investigação do mecanismo de ação mostrou que a molécula aumenta o gasto energético por meio da produção e dissipação de calor. Depois de inicialmente explorar a via clássica associada à UCP1, o grupo identificou, com auxílio de análises proteômicas, o envolvimento de uma via de termogênese dependente de creatina. Segundo Escande, o trabalho foi o primeiro a mostrar um fármaco capaz de ativar e regular essa via.
A molécula avançou então por estudos pré-clínicos e chegou a um ensaio clínico de fase 1. O objetivo principal dessa etapa foi avaliar segurança e tolerabilidade, mas o estudo também identificou um sinal inicial de eficácia: participantes com sobrepeso ou obesidade apresentaram redução de peso após duas semanas de tratamento.
Escande ressaltou que se tratava de um estudo pequeno e de curta duração. A empresa trabalha agora para avançar para a fase 2, em um cenário que mudou substancialmente desde o início do projeto com a entrada no mercado dos agonistas de GLP-1. A nova estratégia inclui avaliar o MVD-1 isoladamente e, dependendo dos recursos disponíveis, também em combinação com terapias baseadas em incretinas.
Novas estratégias contra RSV e doença de Chagas
Outro trabalho que chamou a atenção foi apresentado por Mario Lopes, do grupo de Edison Durigon, no IPSP. O pesquisador mostrou resultados sobre a APD, um derivado de ftalocianina investigado contra o vírus sincicial respiratório (RSV), importante causa de bronquiolite em bebês e crianças pequenas. Atualmente as estratégias de imunização contra o RSV são focadas em gestantes e idosos, mas não há antivirais licenciados especificamente para o tratamento da infecção.
Nos experimentos in vitro, a APD reduziu a infecção e o efeito citopático provocado pelo vírus sem apresentar toxicidade importante nas concentrações estudadas. A molécula mostrou maior atividade quando adicionada no momento inicial da infecção, o que levou o grupo a investigar uma possível interferência na entrada do vírus na célula.
Análises computacionais apontaram uma possível interação da APD com a proteína F do RSV, responsável pela fusão do vírus com a célula hospedeira. A hipótese é que a molécula estabilize a proteína em uma conformação que impeça essa fusão. O mecanismo, porém, ainda precisa ser confirmado experimentalmente. Os próximos passos incluem ensaios específicos de fusão, testes para verificar a ligação física entre a APD e a proteína F e estudos in vivo em camundongos.
A busca por medicamentos capazes de enfrentar um problema ainda sem solução satisfatória também esteve no centro da apresentação de Carolina Moraes, do IPSP e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (FCF-USP). A pesquisadora apresentou a plataforma de descoberta de fármacos para a doença de Chagas desenvolvida na USP, que combina high-content screening, diferentes linhagens de Trypanosoma cruzi, modelos animais e investigação dos mecanismos de ação dos compostos.
Um dos focos atuais são os chamados parasitas persistentes, formas de T. cruzi que conseguem sobreviver temporariamente à exposição a medicamentos. Diferentemente da resistência convencional, não há necessariamente uma alteração genética permanente: quando a pressão do medicamento é retirada, esses parasitas podem voltar a crescer e permanecem sensíveis ao fármaco. Por serem pouco replicativos ou quiescentes, são difíceis de eliminar e são apontados como um dos possíveis fatores associados às falhas terapêuticas na doença de Chagas.
O grupo trabalha no desenvolvimento de métodos que permitam identificar e estudar essas formas em laboratório para, futuramente, realizar triagens de compostos diretamente contra elas. Em paralelo, o grupo faz o caminho inverso: parte de moléculas que já demonstraram atividade contra o T. cruzi e procura descobrir como elas matam o parasita e sobre quais alvos atuam. Para isso, os pesquisadores analisam alterações genéticas e moleculares associadas à resposta do parasita aos compostos.
Novas plataformas para descobrir medicamentos
Também voltada à descoberta de novos antimicrobianos, a apresentação de Caio Franco, do IPSP, mostrou a implantação de uma plataforma de high-content screening para estudar infecções bacterianas intracelulares, inicialmente com Staphylococcus aureus. A proposta considera um aspecto menos explorado dessa bactéria: sua capacidade de invadir e persistir no interior das células, onde pode escapar da resposta imune e ficar menos acessível a antibióticos convencionais.
Entre as estratégias exploradas estão as chamadas terapias dirigidas ao hospedeiro, que procuram modificar processos da própria célula para dificultar a sobrevivência da bactéria. O projeto que está sendo estruturado no IPSP pretende testar principalmente produtos naturais, aproveitando a biodiversidade disponível no país. Depois de uma etapa-piloto, a intenção é avançar para uma biblioteca de pelo menos dois mil compostos e avaliar os candidatos tanto contra bactérias intracelulares quanto em sua forma planctônica.
Já Marcelo Comini, do Institut Pasteur de Montevideo, apresentou a combinação de estratégias de descoberta de fármacos baseadas em alvos moleculares pré-estabelecidos e em análises fenotípicas. Seu grupo trabalha principalmente com tripanossomatídeos e metabolismo redox, explorando diferenças entre as vias metabólicas dos parasitas e as do hospedeiro como possíveis pontos de intervenção terapêutica. Entre as ferramentas utilizadas estão biossensores geneticamente codificados, que permitem acompanhar em tempo real alterações no estado redox das células e investigar rapidamente o mecanismo de ação de candidatos a medicamentos.
Comini destacou também o ganho de escala proporcionado pela automação. Em colaboração com o Institut Pasteur Korea, mais de 50 mil compostos foram avaliados em uma campanha automatizada de high-throughput screening, trabalho que, segundo ele, demandaria anos se realizado manualmente.
Quando química e infraestrutura entram na equação
A química medicinal e a sustentabilidade entraram na discussão com Virginia López, do Institut Pasteur de Montevideo. Ela apresentou uma plataforma destinada a funcionar como ponte entre perguntas biológicas e ferramentas químicas. O sistema combina reações multicomponentes para gerar rapidamente bibliotecas focadas de pequenas moléculas, matérias-primas derivadas de biomassa e avaliações precoces das propriedades farmacológicas dos compostos.
A proposta incorpora ainda critérios de ecotoxicidade e biodegradabilidade desde as etapas iniciais. Para López, sob uma perspectiva de One Health, a eficácia de uma molécula para a saúde humana ou animal deve ser considerada juntamente com sua persistência e seus possíveis impactos ambientais. O processo funciona de maneira iterativa: resultados biológicos orientam novas modificações químicas e as novas moléculas voltam aos testes, em ciclos sucessivos de otimização.
A infraestrutura necessária para que esse tipo de pesquisa produza dados comparáveis e reproduzíveis foi o foco de Mariela Bollati, do Institut Pasteur de Montevideo. Ao apresentar a Cell Biology Unit, Bollati defendeu que uma infraestrutura científica não pode ser entendida apenas como um conjunto de equipamentos: ela depende da integração entre tecnologia, pessoal especializado, processos padronizados e gestão da qualidade.
A unidade oferece citometria de fluxo e tecnologias celulares para pesquisadores internos, grupos externos e indústria e adota procedimentos padronizados para manutenção, treinamento e uso dos equipamentos. A estrutura integra unidades do instituto que seguem Boas Práticas de Laboratório de acordo com padrões da OCDE, com documentação e rastreabilidade das atividades.
Da descoberta científica ao mercado
O caminho entre descoberta científica e aplicação comercial foi abordado por Vanesa Piattoni, do Institut Pasteur de Montevideo, que apresentou o Lab+, iniciativa voltada a transformar projetos científicos em empresas de ciências da vida. O modelo conecta capital privado a projetos originados na academia e prevê investimentos de até US$ 750 mil por empresa durante dois anos, acompanhados de apoio estratégico, jurídico, financeiro e de gestão.
Piattoni ressaltou que transformar uma boa descoberta em uma solução disponível para a sociedade exige responder a questões que vão além da ciência: qual é o produto, quem é o usuário, qual é o mercado, quais são os concorrentes, como proteger a propriedade intelectual e quais exigências regulatórias terão de ser cumpridas. O modelo do Lab+ procura ainda manter cientistas e instituições acadêmicas como participantes da empresa, de modo que parte do valor gerado pela inovação possa retornar ao sistema científico.
A programação científica do terceiro dia reuniu, ao todo, oito apresentações. Além de Escande, Lopes, Moraes, Franco, Comini, López, Bollati e Piattoni, o programa definiu como eixo da sessão “Therapeutics Discovery, Platforms & Innovation”, reforçando o caráter translacional desta etapa do encontro. Encontro terá continuidade com sessão de mesa-redonda e brainstorming on-line.
Na abertura do último dia, Gérard Chuzel, responsável pela administração financeira e de projetos do Institut Pasteur de São Paulo, representou a diretora-executiva do IPSP, Paola Minoprio, que não pôde participar do encerramento por estar em outro compromisso institucional.
Além das discussões e interações realizadas ao longo do evento, o IPSP & IPMon – A Pasteurean Scientific Meeting será concluído com uma mesa-redonda em formato on-line, em data ainda a ser definida. Como preparação para essa etapa, as comissões organizadoras dos dois institutos realizarão um levantamento interno junto aos participantes com o objetivo de identificar oportunidades para o desenvolvimento de projetos conjuntos, o compartilhamento de plataformas e infraestruturas, o intercâmbio de estudantes e pesquisadores e outras possibilidades de cooperação entre as instituições.
Com base nesse levantamento, será elaborado um documento-síntese a ser apresentado e discutido durante a reunião on-line, permitindo consolidar as propostas e definir os próximos passos da colaboração. Dessa forma, o encontro não se limitará às interações realizadas durante o evento presencial, mas estabelecerá as bases para a construção de uma rede regional de colaboração científica, integrada e sustentável, com potencial para ampliar a visibilidade internacional e a capacidade de atuação conjunta das instituições.