Treinamento internacional trouxe conhecimentos que poderão apoiar o desenvolvimento da plataforma de screening de alta vazão já em implantação no Institut Pasteur de São Paulo.
O pesquisador Caio Haddad Franco, do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP), participou, de 24 a 28 de agosto, do curso Mastering the Art of Drug Discovery: Technologies, Tools and Applications, promovido pelo Institut Pasteur Korea, em Gyeonggi-do, na Coreia do Sul. O treinamento abordou diferentes etapas do processo de descoberta de fármacos, combinando aulas teóricas, atividades práticas em laboratório, estudos de caso e projetos em grupo.
Selecionado como integrante da Rede Pasteur, Franco esteve entre os 20 participantes do curso, que reuniu estudantes em fase avançada de formação e pesquisadores experientes de diferentes países. A programação percorreu desde o desenvolvimento de ensaios celulares e a identificação de alvos até o screening de alto conteúdo, a automação, a análise de imagens, o gerenciamento de biblioteca de compostos, e o uso de bioinformática, quimioinformática e inteligência artificial na descoberta de moléculas com potencial terapêutico.
A formação tem relação direta com a plataforma que o pesquisador está implantando no IPSP. Seu grupo estabeleceu um sistema de screening de alta vazão baseado em imagens para testar compostos capazes de interferir na infecção intracelular por Staphylococcus aureus. Em vez de atuar apenas sobre a bactéria, a estratégia busca identificar moléculas que também possam modular processos da célula humana utilizados pelo patógeno para invadir, sobreviver e persistir no organismo. Além dos ensaios contra S. aureus, em breve o pesquisador deve expandir a plataforma para testar outros modelos de infecção bacteriana, como Gram-negativas clinicamente relevantes (Shigella flexneri e Salmonella, por exemplo).
Microscopia automatizada e perfilamento celular
Entre os conteúdos mais relevantes para o trabalho no IPSP, Franco destaca o contato com sistemas avançados de microscopia automatizada. Esses equipamentos fazem a aquisição de milhares de imagens de células submetidas a diferentes tratamentos. A análise permite comparar os fenótipos observados e identificar quais compostos produziram os efeitos desejados.
“Tivemos acesso a microscópios de alta resolução e última geração, inclusive a um sistema voltado a doenças infecciosas que eu ainda não conhecia. Não foi apenas uma apresentação teórica: utilizamos os equipamentos, acompanhamos a aquisição das imagens e trabalhamos com a análise dos resultados”, relata.
O curso também apresentou o Cell Painting, técnica de perfilamento morfológico que utiliza marcadores fluorescentes para revelar diferentes estruturas celulares. Com a análise multiparamétrica das imagens, é possível reconhecer alterações provocadas por compostos e obter pistas sobre seus efeitos e possíveis mecanismos de ação. A metodologia está entre as que Franco pretende estabelecer na nova plataforma do IPSP.
Da organização dos compostos à automação dos testes
Outro aprendizado importante foi o gerenciamento de bibliotecas de compostos. O Institut Pasteur Korea mantém uma coleção de mais de 500 mil moléculas, formada por compostos adquiridos comercialmente e outros sintetizados pela própria instituição. Os participantes conheceram procedimentos de identificação, armazenamento, curadoria, preparo e rastreamento dessas bibliotecas, além de sistemas automatizados de manuseio de líquidos e formatação de microplacas.
Esse conhecimento será útil à medida que o IPSP ampliar sua capacidade de armazenamento e estruturar sua própria biblioteca. “Quando a coleção é pequena, o controle pode ser feito de forma mais simples. Conforme ela expande, torna-se essencial organizar o estoque, o histórico de uso, o preparo das placas, a criação de réplicas e a distribuição das amostras para os testes. Eu queria entender melhor como uma plataforma de grande porte faz essa gestão”, explica Franco.
O pesquisador conheceu ainda um banco sul-coreano de biomoléculas e compostos disponibilizado para a comunidade científica. A ferramenta poderá ser explorada em busca de moléculas de interesse para os projetos conduzidos em São Paulo, observados os procedimentos necessários para solicitação e envio.
Conexões dentro da Rede Pasteur
Além da atualização técnica, o treinamento abriu possibilidades de colaboração. Franco estabeleceu contato com pesquisadores que atuam em screening e descoberta de fármacos e discutiu formas de intercâmbio de tecnologias e bibliotecas de compostos. Há interesse comum, por exemplo, no desenvolvimento de ensaios voltados a infecções bacterianas, área em que as plataformas dos institutos podem reunir competências complementares.
“Foi um dos cursos mais completos de screening dos quais já participei. Consegui me atualizar em tecnologias que estão na fronteira da área e, ao mesmo tempo, criar conexões que poderão contribuir para o projeto do IPSP”, afirma.
Para o pesquisador, a experiência mostra também como a atuação em rede pode acelerar a implantação de novas capacidades científicas, rompendo barreiras geográficas, culturais e linguísticas. A circulação de especialistas, métodos e recursos entre os institutos permite adaptar conhecimentos consolidados em outros centros às necessidades de pesquisa locais — e criar novas frentes de cooperação internacional.
Sobre o curso — O Mastering the Art of Drug Discovery: Technologies, Tools and Applications é um curso intensivo do Institut Pasteur Korea, realizado com apoio e cofinanciamento da Rede Pasteur. A edição de 2026 reuniu pesquisadores das áreas de biologia, química e ciência de dados e cobriu o percurso da pesquisa básica à inovação terapêutica. Metade das 20 vagas foi reservada a integrantes da Rede Pasteur.