Institut Pasteur de São Paulo

Pesquisador do Institut Pasteur de São Paulo contribui para recomendações globais sobre saúde e clima em cúpula internacional

Pesquisador do Institut Pasteur de São Paulo contribui para recomendações globais sobre saúde e clima em cúpula internacional


 

Evento convocado pela França antes do G7 reuniu chefes de Estado e comunidade científica para redefinir estratégias globais de saúde

O pesquisador Mauro César Cafundó de Morais, do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP), participou do One Health Summit, realizado entre 5 e 7 de abril de 2026, em Lyon, na França, contribuindo para a elaboração de recomendações científicas que devem orientar políticas públicas globais diante do avanço das crises sanitárias, climáticas e ambientais. O encontro foi organizado pela França no contexto das discussões internacionais que antecedem o G7 e contou com a participação do presidente Emmanuel Macron, que abriu a sessão de alto nível dedicada à arquitetura global da saúde.

O evento reuniu cerca de 2 mil participantes — incluindo chefes de Estado, organismos internacionais, cientistas e formuladores de políticas — e resultou na publicação do documento “The Lyon Commitments for Health for All Life and the Planet”, que estabelece diretrizes estratégicas para a implementação da abordagem One Health.

A principal mudança proposta é estrutural: reforçar a prevenção como eixo central dos sistemas de saúde, integração de dados e cooperação internacional. “As mudanças climáticas estão alterando o perfil das doenças e exigem adaptação dos sistemas de saúde. O desafio agora é antecipar riscos com base em evidências e transformar isso em políticas públicas”, afirma Morais.

Ciência orientando políticas – O documento final do Summit consolida 47 recomendações elaboradas por especialistas internacionais, organizadas em torno de um princípio central: a saúde humana, animal e ambiental deve ser tratada como um sistema único e interdependente.

Entre as principais diretrizes estão:

· fortalecimento da vigilância integrada para antecipar doenças emergentes e remergentes

· uso de dados e tecnologias avançadas (incluindo inteligência artificial) para previsão de surtos

· combate à resistência antimicrobiana como desafio sistêmico global

· enfrentamento da poluição como fator direto de risco à saúde

· transformação dos sistemas alimentares com foco em saúde e sustentabilidade

· integração entre ciência e políticas públicas, com coordenação entre diferentes setores

O documento também enfatiza a necessidade de superar a fragmentação entre áreas — os chamados “silos” —, promovendo uma atuação coordenada entre diferentes setores e disciplinas.

Projeto brasileiro – No Summit, Morais integrou os debates sobre o impacto das mudanças climáticas na dinâmica de doenças infecciosas — um dos eixos centrais da agenda internacional. Ele fez uma apresentação sobre seu trabalho no IPSP em um evento organizado em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A pesquisa investiga como variáveis climáticas, como temperatura e precipitação, influenciam a transmissão de doenças vetoriais, incluindo dengue, febre amarela e leishmaniose. O trabalho dialoga diretamente com uma das recomendações prioritárias do documento: o desenvolvimento de sistemas de vigilância capazes de antecipar surtos com maior precisão, por meio da integração de dados climáticos, ambientais e epidemiológicos.

“Hoje ainda trabalhamos com previsões amplas, muitas vezes anuais. O desafio é avançar para uma escala mais precisa, tanto no espaço quanto no tempo, para permitir respostas mais rápidas e eficientes”, explica.

Do global ao local – Um dos desdobramentos do projeto é a parceria em andamento com a Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), da Prefeitura de São Paulo, voltada ao aprimoramento do monitoramento da dengue. A iniciativa busca aumentar a resolução espacial dos dados — avançando do nível de grandes áreas para escalas mais detalhadas, como bairros ou até quarteirões —, além de melhorar a previsibilidade temporal, hoje baseada em ciclos sazonais, para análises mais refinadas em bases mensais ou semanais. Outro objetivo é otimizar a alocação de recursos operacionais, permitindo direcionar as ações de campo com maior precisão.

Durante o Summit, Morais foi convidado a apresentar, em um encontro com Ministério da Saúde da França e aOMS, o eixo de pesquisa em clima e saúde desenvolvido no IPSP, incluindo iniciativas voltadas ao monitoramento de doenças sensíveis a variáveis ambientais. Nesse contexto, o modelo de vigilância da dengue na cidade de São Paulo foi apresentado como um dos casos aplicados, despertando o interesse dos participantes pela capacidade de resposta e pela disponibilidade de dados.

Nesse sentido, a pesquisa desenvolvida pelo IPSP busca justamente avançar nessa fronteira: tornar os sistemas de monitoramento mais precisos e, ao mesmo tempo, mais custo-efetivos, ampliando seu potencial de aplicação em diferentes cidades e países. Essa abordagem responde diretamente a uma das diretrizes centrais do Summit: tornar os sistemas de saúde mais resilientes às mudanças climáticas por meio de estratégias baseadas em evidências.

Articulação internacional – Além das recomendações formais, o One Health Summit serviu como uma plataforma de articulação global. Com base nos contatos estabelecidos, o IPSP deve ampliar sua participação em redes internacionais de pesquisa e de vigilância epidemiológica.

“O encontro permitiu aproximar pesquisadores e tomadores de decisão. Agora, o próximo passo é transformar essas conexões em parcerias concretas e projetos colaborativos”, afirma Morais.

***

Sobre o One Health Summit

Realizado em Lyon, o One Health Summit marcou o Dia Mundial da Saúde e antecede a agenda do G7 sob presidência francesa. O evento reuniu:

· 2.000 participantes

· mais de 250 palestrantes

· uma sessão de alto nível com chefes de Estado e organismos internacionais

· um simpósio científico com cerca de 700 participantes

O encontro resultou em um conjunto de compromissos e recomendações que podem orientar políticas públicas em escala global nos próximos anos.