Pesquisadores da USP, Unicamp e Ohio State University apresentaram descobertas sobre inflamassomas, imunometabolismo e sinalização imune associada à inflamação, infecções e câncer durante o segundo dia do simpósio realizado na USP.
A programação da tarde do segundo e último dia do International Symposium on Innate Immunity, realizado em 5 de setembro na Universidade de São Paulo (USP), reuniu pesquisadores que apresentaram avanços na compreensão dos mecanismos moleculares que regulam a imunidade inata, a resposta inflamatória e o combate a infecções e tumores. As palestras abordaram desde a identificação de novos reguladores dos inflamassomas até o papel do metabolismo celular na atividade de macrófagos e as possibilidades terapêuticas associadas à via de sinalização STING.
O evento aconteceu entre os dias 4 e 5 de setembro e foi organizado pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e pelo Institut Pasteur de São Paulo (IPSP), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
A sessão foi aberta por Dario Zamboni, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP), que apresentou resultados de pesquisas voltadas à compreensão dos inflamassomas, complexos proteicos responsáveis por detectar infecções intracelulares e desencadear respostas inflamatórias.
Utilizando uma estratégia de proteômica baseada em proximidade, o pesquisador e sua equipe identificaram proteínas associadas ao inflamassoma NLRC4 durante a infecção por Legionella pneumophila. Entre os alvos encontrados, destacou-se a quinase PAK2, cuja ausência comprometeu a ativação de diferentes inflamassomas, reduziu a produção de IL-1β e prejudicou a capacidade das células de controlar a proliferação bacteriana.
Segundo Zamboni, os resultados indicam que a proteína desempenha um papel mais amplo do que se imaginava. “PAK2 parece atuar como um regulador comum de diferentes inflamassomas, sugerindo a existência de mecanismos compartilhados que controlam a ativação dessas estruturas”, destacou durante a apresentação.
O pesquisador também discutiu evidências de que a exposição prévia à Legionella é capaz de induzir respostas duradouras do sistema imune, compatíveis com mecanismos de imunidade treinada. Os experimentos mostraram que animais previamente expostos à bactéria desenvolveram maior resistência a infecções posteriores, inclusive por outros microrganismos.
Na sequência, Glen Barber, da Ohio State University, apresentou uma palestra sobre a via de sinalização cGAS-STING, um dos principais sistemas celulares responsáveis pela detecção de DNA anormal no citoplasma.
Barber revisou descobertas que ajudaram a estabelecer a importância de STING na imunidade inata e discutiu como essa via conecta danos ao DNA, infecções e vigilância antitumoral. Segundo o pesquisador, a ativação de STING desencadeia a produção de interferons e outras moléculas inflamatórias capazes de mobilizar respostas imunes contra células infectadas ou geneticamente alteradas.
A apresentação destacou ainda que diversos tumores reduzem ou perdem a atividade da via cGAS-STING como estratégia para escapar da vigilância imunológica. Com base nesse conhecimento, diferentes grupos vêm desenvolvendo abordagens terapêuticas destinadas a reativar essa sinalização.
Entre as estratégias discutidas estavam agonistas sintéticos de STING, nanopartículas capazes de induzir respostas inflamatórias antitumorais e plataformas vacinais voltadas ao controle de infecções virais. Os resultados apresentados apontam para o potencial da via como alvo para novas terapias em oncologia e imunologia.
Encerrando a programação científica, Pedro Moraes-Vieira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), abordou a relação entre metabolismo celular e inflamação. Sua palestra apresentou um modelo que descreve como o fator de transcrição HIF-1α controla temporalmente a resposta pró-inflamatória de macrófagos por meio de um programa regulatório bifásico.
Os resultados mostraram que o HIF-1α atua logo nos estágios iniciais da ativação inflamatória, promovendo alterações metabólicas que favorecem a produção de espécies reativas de oxigênio e aumentam a capacidade antimicrobiana das células. Em um segundo momento, o fator passa a induzir a produção de óxido nítrico, contribuindo para a remodelação do metabolismo mitocondrial característica dos macrófagos inflamatórios.
“Esses dados mostram que o HIF-1α não é apenas uma consequência das alterações metabólicas induzidas pela inflamação, mas um regulador central desses processos”, explicou Moraes-Vieira.
O pesquisador também apresentou evidências de que proteínas como Rubicon e componentes do complexo NOX2 desempenham papel essencial na estabilização inicial de HIF-1α. Os mecanismos identificados foram validados em modelos de infecção bacteriana e apresentaram paralelos em células humanas, reforçando sua relevância fisiológica.
Encerramento – O simpósio foi concluído com uma sessão de encerramento conduzida por Sergio Costa Oliveira, da USP, organizador do evento, que agradeceu aos palestrantes, participantes e equipes envolvidas na organização do simpósio. Em sua fala, destacou a importância das colaborações internacionais e incentivou estudantes e jovens pesquisadores a aproveitarem as oportunidades de interação oferecidas pelo evento.
Ao longo de dois dias, o International Symposium on Innate Immunity reuniu especialistas nacionais e internacionais para discutir avanços recentes na compreensão dos mecanismos da imunidade inata e suas implicações para o desenvolvimento de novas estratégias de prevenção e tratamento de doenças infecciosas, inflamatórias e do câncer.