Modelo implantado pelo Institut Pasteur de São Paulo busca evitar a perda de conhecimento experimental causada pela rotatividade de pesquisadores e transformar o instituto em uma estrutura permanente de formação, padronização e transferência tecnológica.
Em instituições científicas altamente voltadas à inovação, a saída de pesquisadores costuma levar embora muito mais do que nomes ou linhas de pesquisa. Frequentemente, perde-se também um patrimônio invisível, mas fundamental para a ciência experimental: o conhecimento prático acumulado no dia a dia da bancada — detalhes técnicos, ajustes finos, procedimentos operacionais e soluções desenvolvidas empiricamente que raramente conseguem ser totalmente descritos em artigos científicos.
Para enfrentar esse problema, o Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) implementou uma estrutura técnica pouco comum em centros de pesquisa brasileiros. O instituto passou a contar com profissionais permanentes dedicados não apenas ao suporte laboratorial, mas também à preservação, padronização e transmissão do conhecimento técnico gerado internamente.
Memória técnica – O primeiro profissional selecionado para atuar nessa missão foi Roberto Augusto Pereira de Sousa, especialista em laboratório vinculado à Universidade de São Paulo (USP), com formação em Biologia, mestrado e doutorado em Imunologia e Parasitologia e experiência internacional no Canadá. Escolhido especificamente para essa função estratégica dentro da estrutura do IPSP, ele atua de forma transversal no instituto para acompanhar técnicas, padronizar procedimentos, fortalecer a reprodutibilidade científica e preservar o conhecimento experimental acumulado por todos os grupos de pesquisa.
Sua função foi concebida para atuar como uma espécie de “memória técnica” institucional. “A ideia é que este técnico não seja técnico de ninguém especificamente. Ele é um técnico do IPSP para aprender, se familiarizar com todas as técnicas desenvolvidas aqui, implementar os procedimentos operacionais e formar pesquisadores, estudantes e novos técnicos que passam pelo instituto”, explica Paola Minoprio, diretora executiva do IPSP.
Segundo ela, o modelo nasceu da necessidade de enfrentar um desafio estrutural comum em instituições científicas altamente dependentes de projetos temporários e bolsas de pesquisa.
“O instituto trabalha com muitos pesquisadores vinculados a projetos temporários e programas de atração de talentos científicos. Esse modelo é extremamente importante para a inovação, mas também cria o desafio de preservar o conhecimento técnico acumulado quando esses pesquisadores encerram seus ciclos no IPSP”, afirma Minoprio.
Conhecimento vivo – Embora os resultados científicos sejam publicados em papers, boa parte do conhecimento experimental permanece tácita, construída pela prática cotidiana dos pesquisadores. “Uma coisa é você ler um paper. Outra coisa é ter a vivência real da bancada”, explica Roberto Sousa. “O artigo nunca vai ser detalhado o suficiente para transmitir completamente o refinamento da técnica, as adaptações necessárias ou os problemas práticos que surgem durante a execução.”
No IPSP, a proposta é justamente evitar que esse conhecimento dependa exclusivamente da permanência de um pesquisador ou estudante específico. Para isso, Roberto percorre os diferentes grupos do instituto acompanhando pesquisadores, aprendendo técnicas, organizando documentos, padronizando procedimentos operacionais e registrando protocolos experimentais detalhados.
Entre as técnicas consideradas prioritárias estão, por exemplo, procedimentos sofisticados como organoides cerebrais (mini-brains), PCR digital e sequenciamento genético avançado — metodologias ainda dominadas por poucos grupos no Brasil.
Expansão científica – Criado em julho de 2019 como Plataforma Científica Pasteur-USP, o atual Institut Pasteur de São Paulo iniciou suas atividades com seis grupos de pesquisa voltados principalmente ao estudo de doenças infecciosas, imunologia, virologia e neurociências.
Em março de 2024, a instituição foi oficialmente transformada no Institut Pasteur de São Paulo (IPSP), consolidando uma nova fase de expansão científica e internacionalização.
Desde então, novos grupos passaram a integrar o instituto, que atualmente reúne pesquisas em áreas como vigilância genômica, spillover viral, saúde única, mudanças climáticas, virologia de roedores urbanos e terapias contra patógenos multirresistentes.
Parte importante desse crescimento ocorreu por meio da atração de jovens pesquisadores vinculados a projetos temporários, incluindo os chamados grupos G4 — iniciativa criada a partir de um acordo entre o Instituto Pasteur, a USP e a Fapesp para atrair talentos científicos ao Brasil.
O avanço das pesquisas também ampliou o intercâmbio internacional de pesquisadores interessados em estudar doenças infecciosas em um contexto marcado pela alta biodiversidade brasileira e pela complexidade epidemiológica do país.
Nesse contexto de crescimento contínuo, internacionalização e circulação permanente de pesquisadores, preservar o conhecimento técnico acumulado passou a ser uma questão estratégica para garantir a continuidade das atividades científicas e evitar a perda de metodologias altamente especializadas desenvolvidas dentro do instituto.
Função estratégica – Segundo Roberto Sousa, sua atuação vai além do apoio operacional tradicional encontrado em laboratórios multiusuários. “O técnico de laboratório multiusuário normalmente auxilia no uso do equipamento. Aqui, a ideia é diferente. Eu acompanho o que os pesquisadores estão fazendo, compreendo os objetivos das pesquisas e registro as metodologias desenvolvidas”, explica.
Além da documentação experimental, ele também atua na elaboração e revisão de protocolos operacionais padrão (POPs), no acompanhamento de normas de biossegurança, na gestão de resíduos laboratoriais e na organização de processos internos ligados à rotina científica do instituto.
A estrutura conta ainda com o apoio de Marina Monti, técnica em laboratório do IPSP, que auxilia principalmente nas rotinas operacionais gerais e nos procedimentos laboratoriais mais cotidianos.
Aprimoramento constante – Segundo Minoprio, a próxima etapa do projeto envolve fortalecer ainda mais os processos de qualidade e boas práticas laboratoriais dentro do instituto. “Nós queremos implementar no futuro uma estrutura robusta de qualidade e boas práticas de laboratório. Isso exige formação em gestão, organização operacional e padronização”, afirma.
“Se surgir uma nova tecnologia importante para o instituto, esse técnico pode ser enviado para fora para se especializar e depois implementar essa técnica aqui”, explica Minoprio. Para a diretora executiva do IPSP, essa lógica transforma os técnicos em agentes estratégicos da sustentabilidade científica institucional. “Eles passam a ser a memória pasteuriana do instituto”, resume.