Parceria vai desenvolver modelos adaptados a diferentes regiões de São Paulo e transformar dados do esgoto em subsídios para decisões de saúde pública.
O Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) e o Insper formalizaram, nesta segunda-feira (17), uma parceria de pesquisa que integra vigilância viral em águas residuais, inteligência artificial, ciência de dados e políticas públicas. O termo foi assinado no Insper, em São Paulo, após cerca de um ano e meio de diálogo entre as equipes das duas instituições.
O projeto parte do sistema de monitoramento de vírus influenza no esgoto implantado pelo IPSP em parceria com a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB). Os dados já permitem identificar o aumento da circulação viral uma ou duas semanas antes do crescimento dos casos mais graves registrados pelo sistema de saúde. Com a nova cooperação, os pesquisadores buscarão transformar esse sinal antecipado em previsões mais precisas e úteis para a tomada de decisões.
A pesquisa é liderada, no IPSP, pelo virologista Rúbens Alves, coordenador do grupo Vigilância Genômica e Inovação em Vacinas. No Insper, a frente é conduzida por Saylon Pereira, pesquisador associado do Centro de Regulação e Democracia (CRD).
Do alerta à previsão de surtos – A proposta é combinar informações sobre a presença e a quantidade de vírus no esgoto com dados de casos graves, resultados laboratoriais, cobertura vacinal, mobilidade urbana e indicadores sociais. Modelos de aprendizado de máquina serão testados para compreender como a dinâmica de transmissão varia entre diferentes áreas da cidade — levando em conta, por exemplo, densidade populacional, circulação de pessoas e acesso aos serviços de saúde.
“Já conseguimos medir a antecipação entre o aumento da carga viral no esgoto e o crescimento dos casos. O próximo passo é transformar esse sinal em previsão. Para isso, precisamos integrar outras variáveis e entender quais modelos funcionam melhor em cada contexto”, afirma Alves.
Além de aprimorar a capacidade preditiva, a parceria pretende investigar como os resultados podem ser incorporados pela administração pública. A meta é produzir evidências que ajudem a orientar medidas como reforço da vacinação, comunicação preventiva e preparação dos serviços de saúde antes que o aumento de casos chegue aos hospitais.
“Modelos generalistas não respondem necessariamente às diferenças entre as regiões de uma cidade. Queremos identificar as variáveis determinantes em cada contexto e, a partir delas, avaliar quais modelos oferecem maior capacidade de previsão e como essas informações podem ser assimiladas pelas políticas públicas”, explica Pereira.
A iniciativa prevê ainda o desenvolvimento de um protótipo de plataforma interativa para disponibilizar os dados e facilitar o uso e o teste dos modelos. As ferramentas deverão seguir princípios de código aberto e ciência aberta, permitindo sua utilização pela comunidade científica. O projeto também inclui uma frente de comunicação e produção audiovisual para tornar os resultados acessíveis à população e dialogar com comunidades potencialmente afetadas.
Competências complementares – Durante a cerimônia, a diretora executiva do IPSP, Paola Minoprio, destacou que a parceria reúne competências complementares em torno de um objetivo comum. De um lado, a experiência do IPSP em vigilância epidemiológica e no desenvolvimento de terapias e vacinas; de outro, a atuação do Insper em inteligência artificial e ciência de dados. Para ela, essa união amplia a capacidade das duas instituições de desenvolver soluções inovadoras em benefício da saúde pública.
O coordenador do CRD do Insper, Paulo Furquim, destacou que a parceria tem um diferencial importante: nasceu da aproximação e do trabalho conjunto entre os próprios pesquisadores, e não de uma decisão tomada pelas cúpulas das instituições. “A parceria já existe, ela é viva. A produção do conhecimento novo está nas pessoas trabalhando juntas”, afirmou. Para Furquim, essa origem dá solidez à colaboração e aumenta suas possibilidades de sucesso, crescimento e incorporação de novos parceiros.
O adido de Cooperação e de Ação Cultural do Consulado-Geral da França em São Paulo, Yannick Samson, classificou o acordo como um exemplo de diplomacia científica em ação. Segundo ele, a combinação das competências do IPSP e do Insper tem potencial para produzir resultados concretos para São Paulo e, futuramente, para outros contextos urbanos.