Institut Pasteur de São Paulo

Infecções que afetam o cérebro: pesquisadores do ecossistema Pasteur e da USP exploram conexões entre vírus e neurodesenvolvimento

Infecções que afetam o cérebro: pesquisadores do ecossistema Pasteur e da USP exploram conexões entre vírus e neurodesenvolvimento


 

Painel integrou o fórum internacional do Institut Pasteur de São Paulo, dedicado a discutir como a cooperação científica pode fortalecer a resposta aos desafios da saúde global em regiões tropicais.

Durante o Fórum Internacional “Global Health in Tropical Regions: Perspectives from Latin America and West Africa in a Changing World – French Contributions”, realizado de 20 a 22 de outubro no campus da USP, em São Paulo, pesquisadores do ecossistema Pasteur e da Universidade de São Paulo se reuniram no painel “Intersections between Neuroscience & Infectious Diseases” para discutir como agentes infecciosos, vírus e bactérias, interagem com o cérebro e afetam o neurodesenvolvimento.

Organizado pelo Institut Pasteur de São Paulo (IPSP), o evento integrou a programação oficial do Ano da França no Brasil 2025 e promoveu um debate sobre como a cooperação científica internacional pode contribuir para enfrentar os desafios da saúde global em regiões tropicais.

Vírus neurotrópicos e autismo

A professora Patrícia Beltrão Braga, do IPSP e do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB-USP), apresentou resultados do Laboratório de Modelagem de Doenças, que utiliza modelos in vitro e organoides cerebrais derivados de células-tronco pluripotentes para investigar como infecções durante a gestação podem interferir no neurodesenvolvimento.

Os estudos mostram que infecções virais, como a do Zika vírus, podem desencadear processos de neuroinflamação capazes de alterar a formação de sinapses e influenciar o surgimento de transtornos do espectro autista (TEA).

“Nosso grupo observou que neurônios derivados de crianças autistas apresentam atividade elétrica e química reduzida e astrócitos com resposta inflamatória exacerbada. Bloquear a produção de IL-6 foi suficiente para restaurar parte da comunicação sináptica”, explicou.

Braga também destacou o uso do antiviral sofosbuvir — originalmente indicado para hepatite C — como alternativa para impedir a transmissão vertical do Zika vírus e reduzir seus efeitos neurológicos em modelos experimentais.

Raiva e cérebro

O pesquisador Hervé Bourhy, diretor do Departamento de Saúde Global do Institut Pasteur de Paris, abordou o comportamento ecológico e evolutivo do vírus da raiva (Lyssavirus) — um dos mais neurotrópicos conhecidos — e suas implicações para a saúde humana e animal.

Com base em três décadas de monitoramento de colônias de morcegos na Europa e na América do Sul, Bourhy mostrou que o vírus da raiva pode circular por longos períodos entre espécies sem causar mortalidade, um fenômeno que sugere mecanismos naturais de tolerância neural e persistência viral nesses animais.

Essa capacidade de manutenção silenciosa do vírus nos reservatórios naturais, explicou o pesquisador, torna as populações de morcegos um elo constante na cadeia ecológica da raiva. Por isso, mudanças ambientais provocadas pelo desmatamento, mineração e expansão humana em regiões tropicais aumentam a probabilidade de contato entre humanos e espécies vetoras, elevando o risco de infecções cerebrais zoonóticas.

Efeitos cognitivos da Covid longa

O neurocientista Guilherme Dias de Melo, do Institut Pasteur de Paris, apresentou pesquisas sobre as alterações cerebrais associadas à Covid longa, com base em modelos experimentais em hamsters. Os resultados mostram que, mesmo após a fase aguda da infecção, o SARS-CoV-2 pode permanecer no cérebro em níveis baixos, provocando déficits cognitivos e sintomas comportamentais duradouros. A análise genética revelou padrões semelhantes aos observados em doenças neurodegenerativas, com disfunção mitocondrial e perda de dopamina.

Microbioma e neurodesenvolvimento

A professora Carla R. Tadei, do ICB-USP, apresentou resultados do Projeto Germina, parte da iniciativa internacional Welcome Leap, que acompanhou 500 bebês brasileiros do nascimento aos dois anos de idade para investigar o impacto do microbioma intestinal no desenvolvimento neurológico.

Os dados mostram que a amamentação exclusiva está associada a melhor desempenho cognitivo e maior diversidade microbiana, enquanto a exposição ao chumbo reduziu as pontuações nas escalas cognitivas aplicadas. A equipe também identificou correlações entre bactérias produtoras de vitamina K e melhor desenvolvimento neurológico.
“Esses resultados reforçam o papel do microbioma como um órgão em formação nos primeiros mil dias de vida — e mostram que intervir nesse período pode trazer benefícios duradouros à saúde cerebral”, afirmou.

Microglia e neuroinflamação

Encerrando o painel, o professor Luiz Roberto G. de Britto, do IPSP e ICB-USP, destacou o papel central da microglia, célula imune do sistema nervoso, na mediação das respostas inflamatórias provocadas por agentes infecciosos. Ele comparou os mecanismos observados em infecções virais aos de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson, mostrando que a mesma cascata inflamatória pode ser desencadeada por patógenos.

Britto também chamou atenção para o impacto das mudanças climáticas na dinâmica dessas doenças: “Temperaturas mais altas e alterações ambientais modificam a ecologia dos patógenos e ampliam o risco de infecções com repercussões neurológicas”, concluiu.