Institut Pasteur de São Paulo

Como a Listeria invade o corpo e se espalha sem ser detectada: pesquisador do Institut Pasteur detalha mecanismos de infecção sistêmica

Como a Listeria invade o corpo e se espalha sem ser detectada: pesquisador do Institut Pasteur detalha mecanismos de infecção sistêmica


 

Para o pesquisador, a Listeria monocytogenes vai além da doença que causa: ao atravessar múltiplas barreiras do organismo, a bactéria se torna modelo para entender como patógenos se disseminam e interagem com o sistema imune.

A bactéria Listeria monocytogenes, responsável por uma infecção alimentar potencialmente grave, com alta morbidade e letalidade em grupos vulneráveis, utiliza mecanismos altamente especializados para atravessar barreiras do hospedeiro, escapar das respostas imunológicas e se disseminar sem ser facilmente detectada. Isso foi demonstrado pelo microbiologista e médico infectologista Marc Lecuit, do Institut Pasteur (Paris), Inserm, Université Paris Cité e Hospital Necker-Enfants Malades, durante seminário realizado no Institut Pasteur de São Paulo em 17 de abril, no Brasil.

Ao longo da apresentação, Lecuit detalhou como a listeriose serve como modelo para compreender infecções sistêmicas — aquelas em que um patógeno atravessa barreiras do hospedeiro e se dissemina pelo organismo por meio da circulação.

Associada ao consumo de alimentos contaminados, a listeriose é, na maioria dos casos, assintomática ou apresenta sintomas leves. No entanto, em uma parcela das infecções — especialmente em idosos, imunocomprometidos e gestantes — a doença pode evoluir para sua forma invasiva, levando à septicemia e atingindo o sistema nervoso central e a unidade fetoplacentária, com alto risco de complicações e mortalidade.

“O que torna a Listeria particularmente interessante é que ela não simplesmente invade o hospedeiro — ela faz isso explorando pontos muito específicos de vulnerabilidade nas barreiras do organismo”, afirmou Lecuit.

Entrada específica – Um dos principais avanços discutidos diz respeito a como a bactéria atravessa o epitélio intestinal. Ao contrário do que se supunha anteriormente, a invasão não ocorre de forma difusa ao longo da mucosa.

O grupo de Lecuit demonstrou que a bactéria utiliza a proteína InlA para se ligar à E-caderina — uma molécula presente nas junções entre células epiteliais —, mas essa interação depende de regiões em que o receptor está exposto e acessível. Esses “pontos de entrada” incluem, em particular, as células caliciformes.

“Não se trata de uma invasão aleatória. A bactéria invade nichos altamente precisos onde pode interagir com o hospedeiro”, explicou.

Além disso, os dados mostram que essa interação varia entre espécies, o que ajuda a explicar diferenças de suscetibilidade entre modelos experimentais e humanos — um aspecto importante para o desenvolvimento de modelos mais representativos da doença.

Disseminação silenciosa – Após atravessar o epitélio, a Listeria pode alcançar a corrente sanguínea e se disseminar para órgãos como fígado e baço, a partir dos quais, em alguns casos, a infecção pode progredir para o sistema nervoso central e a placenta. Esse processo envolve mecanismos intracelulares sofisticados e diferentes fatores bacterianos que contribuem para a disseminação no organismo.

Proteínas como a LLO permitem que a bactéria escape de compartimentos intracelulares, enquanto ActA possibilita sua movimentação dentro das células e a propagação direta para células vizinhas, reduzindo sua exposição ao sistema imune.

Em modelos experimentais com organoides intestinais e técnicas avançadas de imagem, o grupo observou que a bactéria pode atravessar o epitélio por meio de transcitose — um processo em que ela passa por dentro das células sem danificar o tecido.

“A infecção intestinal é silenciosa, praticamente invisível do ponto de vista inflamatório. A bactéria pode atravessar o epitélio sem desencadear uma resposta imediata, o que favorece sua disseminação”, disse Lecuit.

Resposta heterogênea – Outro eixo central é como o sistema imune responde à infecção — e, sobretudo, como essa resposta varia em diferentes regiões do intestino. Os resultados indicam ainda que o local e o modo de entrada da bactéria influenciam diretamente essa resposta, determinando se a infecção evolui de forma mais silenciosa ou inflamatória.

Estruturas como as placas de Peyer apresentam infiltração de neutrófilos em resposta à infecção, enquanto as vilosidades intestinais mostram pouca resposta. Nessas regiões, células CX3CR1+ produzem sinais anti-inflamatórios e um ambiente tolerogênico — ou seja, com uma resposta imune mais controlada.

“Há uma heterogeneidade significativa na resposta intestinal do hospedeiro. Em algumas regiões, observamos uma resposta inflamatória; em outras, um ambiente que favorece a tolerância. Isso pode ser decisivo para o sucesso da infecção”, destacou.

Ele também apresentou os mecanismos pelos quais a Listeria evade a resposta imune adaptativa, atravessa a barreira hematoencefálica e desencadeia encefalite.

Mais do que descrever os mecanismos da listeriose, os estudos apresentados por Lecuit indicam que o sucesso da infecção depende não apenas da capacidade invasiva da bactéria, mas também de como ela interage com o sistema imune em diferentes contextos do hospedeiro. Ao explorar múltiplas rotas de entrada e evitar respostas do organismo, a Listeria revela princípios mais amplos sobre a dinâmica das infecções — incluindo estratégias de persistência e disseminação que vão além do quadro clínico clássico da doença.

Chefe da unidade de Biologia da Infecção, vinculada ao Institut Pasteur e ao Inserm, e professor de medicina na Université Paris Cité e no Hospital Necker-Enfants Malades, Lecuit também dirige o Centro Nacional de Referência para Listeria e um centro colaborador da Organização Mundial da Saúde, atuando na interface entre pesquisa básica, ciência clínica e vigilância epidemiológica.