Mesa-redonda que encerrou o fórum internacional no Institut Pasteur de São Paulo reuniu instituições de ambos os países para discutir como transformar colaborações pontuais em uma estratégia científica integrada.
A mesa-redonda de encerramento do Fórum Internacional “Global Health in Tropical Regions: Perspectives from Latin America and West Africa in a Changing World – French Contributions”, realizada no Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) no dia 22 de outubro, reuniu representantes do CNRS, IRD, Institut Pasteur de Paris, Fiocruz, FAPESP, Esalq/USP, Inserm–ANRS–MIE e da Embaixada da França. O diálogo deixou claro um consenso: a cooperação científica entre Brasil e França é intensa e diversificada, e o desafio agora é alinhar essas múltiplas iniciativas em uma estratégia comum de longo prazo.
O adido científico Vincent Brignol, do Consulado da França no Rio de Janeiro, lembrou que o Comitê Misto Brasil–França de Cooperação Científica, criado após a visita do presidente Emmanuel Macron, elegeu a pesquisa em saúde como uma das quatro prioridades bilaterais. “O Brasil é um dos raros países com os quais mantemos essa estrutura formal de governança científica”, afirmou, destacando a necessidade de articular instrumentos já existentes — como Capes–Cofecub, Fapesp–ANR e Fapesp–Inserm — e ampliar o acesso das equipes brasileiras a fundos europeus. Ele mencionou ainda que a Embaixada tem trabalhado para apoiar mobilidades científicas e a participação de grupos brasileiros em projetos europeus.
PRISMA: uma plataforma para dar coerência
A pesquisadora Erika Telford, da ANRS–MIE, apresentou o PRISMA (Plataforma Internacional de Pesquisa em Saúde Global), lançado em 1º de outubro em Fortaleza. O consórcio reúne nove instituições francesas e brasileiras, entre elas o Institut Pasteur de Paris, o IRD, o Inserm, o Ministério da Saúde, o MCTI e a Fiocruz. “O PRISMA não nasce para substituir programas existentes, mas para conectá-los e lhes dar direção”, explicou. “Queremos criar um espaço comum de planejamento, com prioridades compartilhadas e um calendário unificado de fomento.”
Erika destacou ainda que a plataforma foi concebida como um consórcio aberto e inclusivo, que deverá evoluir por fases e incorporar novos parceiros. Ela propôs a criação de um portal conjunto de informações, hospedado por uma instituição brasileira ou francesa, para divulgar chamadas e oportunidades de cooperação, reforçando que a comunicação será o elemento-chave do PRISMA. A proposta foi reforçada por participantes da plateia, que sugeriram que o site concentre chamadas e editais de ambos os países.
O olhar dos organismos de pesquisa franceses
Representando o Institut Pasteur de Paris, Christophe Denfert ressaltou que o Brasil ocupa posição estratégica no Plano Pasteur 2030, tanto pela relevância científica quanto pelo papel na cooperação Sul–Sul. “O sistema Pasteur valoriza alianças que combinam excelência científica e impacto social. O Brasil, com sua capacidade em biologia, vigilância e saúde pública, é um parceiro essencial nessa rede”, afirmou. Denfert destacou ainda o potencial do Institut Pasteur de São Paulo como polo regional capaz de integrar iniciativas da América Latina e da África lusófona em torno de temas como doenças infecciosas e resistência antimicrobiana.
Pelo Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), Nicolas Riteau apresentou o Laboratório Internacional de Pesquisa IMEA (Immunity, Infection and Cancer), sediado em Ribeirão Preto, dedicado ao estudo de mecanismos imunopatológicos de infecções, inflamações e câncer. Ele lembrou que o CNRS mantém 80 laboratórios internacionais no mundo — dez deles na América Latina — e destacou a longa parceria com o Brasil, que já dura mais de quarenta anos. Riteau defendeu a mobilidade científica como eixo central da cooperação, incluindo jovens líderes e técnicos, e ressaltou a importância de integrar ações entre CNRS, ANR, Inserm e Institut Pasteur para fortalecer uma governança científica articulada entre os dois países.
O diretor do Institut de Recherche pour le Développement (IRD) no Brasil, Abdelfettah Sifeddine, enfatizou a necessidade de fortalecer as conexões entre pesquisa, políticas públicas e comunidades locais. Ele lembrou que o IRD atua há décadas na Amazônia e no Nordeste em projetos sobre clima, biodiversidade e saúde ambiental, e que a colaboração com instituições brasileiras é essencial para compreender as transformações ecológicas em curso. “As fronteiras entre saúde e meio ambiente já não existem. Precisamos de ciência que dialogue com o território e com as populações que o habitam”, afirmou.
Ciência, sustentabilidade e formação
A diretora da Esalq/USP, Thaís Vieira, defendeu que a cooperação entre Brasil e França deve avançar para integrar alimentação, ecologia e saúde pública, articulando universidades e centros de pesquisa agrícola e biomédica. “O conhecimento agroecológico brasileiro e a tradição francesa em nutrição e microbiomas se complementam. É a base da saúde planetária”, disse.
Ela mencionou o novo Centro Internacional USP–INRAE de Saúde Planetária, a ser inaugurado com o governo francês, e destacou que o grupo acaba de receber da FAO um reconhecimento pelo conceito de Foodomics, que integra as ciências ômicas à análise de alimentos e nutrição preventiva. “Não podemos falar sobre mudança climática sem falar sobre comida e nutrição. É isso que conecta agricultura, ecologia e saúde.”
Infraestrutura, interoperabilidade e fomento
Pela Fiocruz, Ilka Villardo destacou a importância de fortalecer a interoperabilidade e o compartilhamento de dados em vigilância epidemiológica e genômica. Defendeu a construção de uma infraestrutura de ciência aberta que permita o acesso rápido a informações entre instituições brasileiras e francesas.
Da FAPESP, Raul Machado Neto lembrou que a França é o terceiro principal parceiro internacional da fundação e sugeriu a criação de linhas de financiamento voltadas à mobilidade de curta duração, destacando que esse é “o primeiro passo para parcerias duradouras”. Ele também ressaltou a necessidade de maior previsibilidade e coordenação entre agências de fomento, observando que a fundação mantém programas específicos com o Institut Pasteur e outros centros franceses.
A diretora executiva do IPSP, Paola Minoprio, complementou lembrando que a criação do programa de Jovens Pesquisadores FAPESP–Institut Pasteur foi fruto de uma parceria pioneira, que já resultou em dois grupos ativos, com os pesquisadores Luiz Gustavo Góes e Rubens Alves, e um terceiro a começar operar em dezembro com o pesquisador Caio Haddad.
O papel do IPSP na nova arquitetura da cooperação
Paola Minoprio apresentou a visão do IPSP como plataforma científica e diplomática. Ela anunciou planos para a criação de novas plataformas de pesquisa — voltadas à biologia estrutural, citometria, proteínas recombinantes e coleções biológicas — que servirão como base para formação, treinamento e intercâmbio de pesquisadores. “O Institut Pasteur de São Paulo quer se tornar um polo regional de capacitação científica, aberto a pesquisadores da Rede Pasteur e de instituições brasileiras”, afirmou.
Ela mencionou ainda a proposta de um centro ampliado de pesquisa e treinamento destinado a integrar essas plataformas e abrigar projetos colaborativos de longo prazo. “Temos a competência técnica; agora precisamos da estrutura que permita que o conhecimento circule”, disse.
Encerrando a mesa, ela agradeceu aos participantes e reforçou a importância da cooperação como valor científico e humano. “Somos pesquisadores, queremos trabalhar juntos — é isso que nos une. Nossa missão é buscar soluções para a humanidade”, disse. Ela lembrou que o Instituto Pasteur de São Paulo nasceu de uma estratégia científica sólida, baseada em complementaridades e respostas rápidas a emergências sanitárias, e concluiu com uma mensagem de otimismo: “Que este seja apenas o começo de muitos encontros e novas colaborações entre Brasil e França.”