Projeto financiado pela FAPESP combina biologia molecular, sequenciamento genético e vigilância ecológica para mapear vírus emergentes em roedores urbanos.
O Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) acaba de criar o Laboratório de Virologia de Roedores Urbanos, um novo grupo de pesquisa dedicado à identificação e caracterização de vírus zoonóticos presentes em populações de roedores que habitam grandes centros urbanos. O laboratório é coordenado pelo pesquisador Robert Andreata Santos e tem como foco inicial a cidade de São Paulo.
O projeto parte de uma abordagem integrada, que combina vigilância molecular, sorológica e ecológica, com o objetivo de compreender quais vírus circulam entre roedores urbanos — especialmente ratos (Rattus norvegicus e Rattus rattus) —, avaliar seu potencial zoonótico e identificar fatores ambientais que favorecem sua disseminação. Os dados gerados poderão subsidiar estratégias de prevenção, vigilância e controle de zoonoses, em articulação com o sistema público de saúde.
A iniciativa conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), na modalidade Jovem Pesquisador, e será desenvolvida ao longo de cinco anos no IPSP.
Vigilância ativa em um cenário pouco explorado
Embora a presença de roedores em áreas urbanas seja amplamente reconhecida, os estudos sobre os vírus que circulam nesses animais ainda são escassos, tanto no Brasil quanto no exterior. Em geral, a atenção costuma se concentrar em doenças bacterianas bem estabelecidas, como a leptospirose. No entanto, segundo Santos, há uma lacuna importante no monitoramento sistemático de vírus potencialmente emergentes.
“A vigilância ativa de vírus em roedores urbanos ainda é pouco desenvolvida no mundo todo. Em muitos casos, simplesmente não sabemos o que está circulando nesses animais, nem se esses vírus podem estar associados a quadros clínicos humanos subnotificados ou confundidos com outras viroses comuns”, explica o pesquisador.
Entre os vírus já descritos em roedores estão hantavírus, arenavírus, coronavírus, rotavírus, hepatite E e ortopoxvírus, entre outros. No caso dos hantavírus, por exemplo, embora os casos notificados no Brasil não sejam numerosos, a letalidade pode ultrapassar 40%, conforme a variante viral, o que reforça a importância do monitoramento e vigilância ativa de vírus de potencial zoonótico no Brasil.
Parceria com a vigilância em saúde do município
O projeto prevê uma parceria com a Coordenadoria de Vigilância em Saúde (COVISA/SMS) da Prefeitura de São Paulo. A colaboração, que está em fase de formalização institucional, permitirá o acesso a áreas com registros de infestação de roedores e a integração com ações já realizadas pelo poder público.
Na fase inicial, o trabalho será baseado principalmente na coleta de amostras de fezes e de animais mortos, encontrados em ações rotineiras de controle populacional realizadas pela prefeitura. As amostras serão encaminhadas ao laboratório do IPSP, onde os pesquisadores irão analisar as fezes e os diferentes órgãos para identificar a presença de vírus e compreender seu tropismo — ou seja, quais tecidos são preferencialmente infectados.
“A partir da análise de órgãos específicos, conseguimos inferir possíveis vias de transmissão e avaliar riscos associados à exposição humana, como aerossóis ou contato ambiental”, detalha Santos.
A coleta deverá ocorrer, inicialmente, de forma mensal ou quinzenal, respeitando critérios técnicos e de biossegurança. Etapas futuras do projeto poderão incluir estudos mais complexos, como a captura de animais vivos, dependendo da viabilidade logística e das autorizações necessárias.
Biologia molecular, sequenciamento e biossegurança
O Laboratório de Virologia de Roedores Urbanos utilizará técnicas avançadas de biologia molecular, como PCR em tempo real e sequenciamento genético, para realizar o rastreamento amplo de vírus presentes nas amostras. Nos casos positivos, será possível identificar com precisão os agentes virais e comparar variantes encontradas em diferentes regiões da cidade.
Quando viável, os pesquisadores também poderão realizar o isolamento viral em laboratório, permitindo o estudo de características genéticas e funcionais dos vírus, como mutações associadas à adaptação ou ao potencial patogênico.
A escolha do Institut Pasteur de São Paulo como sede do projeto foi estratégica. O IPSP conta com uma infraestrutura robusta de biossegurança, incluindo laboratórios NB2 e NB3, além de experiência consolidada em vigilância de patógenos emergentes e reemergentes.
“Trabalhar com vírus de origem ambiental e animal exige não apenas equipamentos, mas uma cultura institucional voltada à biossegurança e à resposta rápida a riscos sanitários. O Pasteur reúne essas condições”, afirma o pesquisador.
Impacto científico e em saúde pública
Além de gerar conhecimento científico inédito sobre a circulação de vírus em roedores urbanos, o projeto tem potencial para contribuir diretamente com a saúde pública. Ao fornecer dados qualificados às autoridades sanitárias, o laboratório poderá apoiar decisões sobre ações de controle, monitoramento de áreas de risco e preparação para eventuais surtos localizados.
O grupo também pretende estabelecer colaborações internacionais, incluindo parcerias com pesquisadores de centros urbanos dos Estados Unidos e da Europa, o que permitirá comparar a diversidade viral associada a roedores em diferentes contextos geográficos e ambientais.
Robert Andreata Santos é biomédico e doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), com atuação na área de virologia e doenças infecciosas. Graduou-se em Biomedicina pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e realizou parte de sua formação no exterior, incluindo período acadêmico na Universidade de Aveiro, em Portugal, pelo programa Ciências sem Fronteiras.
Desenvolveu mestrado e doutorado na USP, com pesquisas voltadas a vacinas e métodos diagnósticos para arboviroses, como Dengue e Zika. Realizou estágio científico no Institut Pasteur de Paris, integrando a Célula de Intervenção Biológica de Urgência (CIBU), e atuou como pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com estudos sobre respostas imunológicas à vacinação contra a covid-19. Entre 2023 e 2024, realizou estágio de pesquisa em Nova York, onde teve contato direto com estudos de vigilância viral em roedores urbanos, experiência que contribuiu para a concepção de seu projeto atual.