Análise de dados de 2015 a 2025 combinou ferramentas computacionais, modelagem estatística e informações epidemiológicas para investigar o avanço da dengue no país.
Uma pesquisa conduzida no Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) estimou em 56,6 quilômetros por ano a velocidade do deslocamento da distribuição dos casos de dengue de transmissão local em direção a latitudes mais ao sul do Brasil, entre 2015 e 2025. A metodologia utilizada no estudo poderá, no futuro, contribuir para investigações sobre outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, como zika e chikungunya.
Os resultados são preliminares e ainda não foram publicados em revista científica. Embora a análise tenha se limitado ao Brasil, a tendência observada chama a atenção para a importância de acompanhar a distribuição da dengue também em países vizinhos, como Argentina e Uruguai.
Coordenada por Mauro César Cafundó de Morais, responsável pelo Laboratório do Clima e Saúde do IPSP, a investigação conta com a participação de Richard Paul, do Institut Pasteur, na França, e Alexandre Sarmento Queiroga, do Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz Pernambuco e da Escola de Saúde Pública da Paraíba.
O estudo utilizou dados de casos confirmados de dengue registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) entre 2015 e 2025, além de informações populacionais e geográficas dos municípios brasileiros. A análise considerou apenas casos autóctones — aqueles em que a infecção ocorreu no próprio local investigado — e incluiu municípios sem casos confirmados em determinados anos. Ao todo, foram analisadas mais de 61 mil observações, correspondentes à avaliação de cada município brasileiro em cada ano do período estudado.
Os pesquisadores empregaram modelos de regressão, modelos aditivos generalizados e procedimentos de reamostragem estatística (bootstrap) na análise da incidência de dengue em diferentes latitudes do Brasil e na estimativa da velocidade de mudança de sua distribuição ao longo do tempo.
“Dividimos o país em faixas de latitude e calculamos a incidência de dengue em cada uma delas. Ao considerar o número de casos por 100 mil habitantes, podemos comparar regiões com populações de tamanhos diferentes”, explica Morais.
Mudança na distribuição — Uma das análises mostrou que a faixa mais ao sul com incidência de pelo menos 100 casos de transmissão local por 100 mil habitantes estava, em 2025, cerca de 550 quilômetros mais ao sul do que em 2015. Essa faixa inclui municípios do Rio Grande do Sul.
Em outra etapa do estudo, os pesquisadores analisaram a distribuição dos casos ao longo de todo o período e estimaram a velocidade média da mudança. “O que ferramentas computacionais avançadas nos permitiram fazer foi justamente estimar essa tendência de velocidade anual”, explica Morais.
Segundo o estudo, a mudança não ocorreu em um único salto: a análise das faixas de latitude ano a ano mostrou uma progressão ao longo do período.
Os pesquisadores também investigaram se a tendência poderia estar relacionada a casos importados, variações na quantidade de testes de diagnóstico ou à inclusão de casos leves. Na análise separada dos casos que levaram à hospitalização, a distribuição também se deslocou para o sul, a uma velocidade estimada de 40 quilômetros por ano.
Outras doenças e próximos passos — A aplicação da metodologia a outras doenças transmitidas pelo Aedes ainda precisa ser avaliada. Segundo Morais, cada vírus apresenta características e condições de transmissão próprias, que devem ser consideradas antes de utilizar a abordagem em outras investigações.
Para aprofundar a pesquisa sobre a dengue, os próximos passos incluem investigar os fatores associados à tendência observada, entre eles a influência do clima e o papel da introdução de sorotipos do vírus.
Morais também pretende ampliar a colaboração com instituições de outros países das Américas para verificar se mudanças semelhantes na distribuição da doença podem ser identificadas além do Brasil.
Para ele, a análise da distribuição da dengue pode contribuir para a vigilância. “A ideia principal é tentar criar um sistema de alerta que permita avisar com antecedência o que fazer e como fazer”, afirma.