Pesquisadora do Institut Pasteur de São Paulo conquistou certificação internacional da IFBA e participou de programa promovido pelo MCTI e pela OEA sobre segurança da pesquisa e proteção de biotecnologias emergentes.
A pesquisadora Angélica Cristine de Almeida Campos, líder do SIMBA – Laboratório de Spillover Viral e Saúde Única do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP), conquistou a certificação internacional em Gerenciamento de Biorrisco da International Federation of Biosafety Associations (IFBA), organização responsável pelo único programa de certificação técnica em biossegurança e bioproteção reconhecido globalmente. A certificação foi obtida após sua participação em um programa de capacitação promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em parceria com a Organização dos Estados Americanos (OEA).
O programa integrou uma iniciativa voltada ao fortalecimento da segurança da pesquisa diante dos desafios trazidos pelas biotecnologias avançadas e emergentes. Ao longo de três encontros realizados entre agosto e setembro de 2026, especialistas de diferentes instituições brasileiras discutiram temas como gerenciamento de biorrisco, pesquisa de duplo uso, proteção de ativos científicos, governança de tecnologias emergentes e segurança da informação. Após os encontros, Campos realizou o exame da IFBA e, com a aprovação, obteve a certificação.
O avanço das biotecnologias trouxe, ao mesmo tempo, novos desafios relacionados à proteção do conhecimento científico, tema que esteve no centro das discussões do programa.
“Hoje precisamos pensar nas duas coisas. Uma é trabalhar com segurança, protegendo o pesquisador, a população e o ambiente. Outra é pensar no que acontece com o material, os dados e o conhecimento que produzimos e como evitar que sejam usados para fins nocivos, como o desenvolvimento de armas biológicas ou outras aplicações capazes de causar danos.”
Segurança além do laboratório
A discussão proposta pelo programa vai além dos conceitos tradicionais de biossegurança. O avanço do sequenciamento genético, da inteligência artificial, da automação laboratorial e do compartilhamento digital de dados vem transformando a forma como a ciência é produzida e ampliando os desafios relacionados à proteção da pesquisa.
Nesse contexto, ganha força o conceito de segurança da pesquisa, abordagem que articula biossegurança, bioproteção, segurança da informação, governança institucional e Saúde Única, considerando de forma integrada os impactos sobre pessoas, animais e meio ambiente para reduzir riscos associados ao uso indevido de materiais, dados, tecnologias e conhecimentos científicos.
“O risco deixou de estar apenas no material biológico dentro do laboratório. Uma sequência genética pode se transformar em informação digital, circular entre instituições e ser analisada por sistemas computacionais. Por isso, precisamos pensar não só em como proteger a amostra, mas também os dados e o conhecimento gerados a partir dela.”
Uma cultura de biossegurança consolidada
A obtenção da certificação reflete uma estrutura de biossegurança construída ao longo dos anos no IPSP. O instituto mantém quatro laboratórios de nível de biossegurança 3 (NB3), além de procedimentos rigorosos, treinamentos periódicos e atividades coordenadas pela Comissão Interna de Biossegurança para prevenção de riscos e resposta a incidentes.
Para Campos, a capacitação permitiu aprofundar conceitos que vêm ganhando importância à medida que a pesquisa científica se torna cada vez mais integrada a tecnologias digitais.
“A capacitação trouxe uma discussão muito atual sobre segurança da pesquisa, especialmente em temas relacionados à proteção de dados, ao compartilhamento de informações e aos riscos associados às novas tecnologias. A certificação representa um reconhecimento dessas competências em uma área que vem ganhando cada vez mais relevância para as instituições de pesquisa.”