Institut Pasteur de São Paulo e empresa francesa Tekkare unem pesquisadores em dois projetos voltados a desafios considerados prioritários pela Organização Mundial da Saúde; parceria consolida aproximação iniciada durante missão oficial francesa ao IPSP.
O Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) e a empresa francesa Tekkare anunciaram uma colaboração internacional para desenvolver aplicações de inteligência artificial capazes de acelerar pesquisas em duas áreas consideradas prioritárias pela saúde pública mundial: o desenvolvimento de vacinas contra influenza e o enfrentamento da resistência aos antimicrobianos.
Firmada por 12 meses, a colaboração prevê o uso da plataforma OIP Discovery, desenvolvida pela Tekkare, por pesquisadores do IPSP nas áreas de bacteriologia, vacinologia e infectologia. Além de disponibilizar acesso à plataforma, treinamento e desenvolvimento conjunto de funcionalidades, a empresa contará com a expertise científica dos pesquisadores brasileiros para validar, aperfeiçoar e expandir os recursos da ferramenta em aplicações reais de pesquisa. A parceria não envolve financiamento de pesquisas nem desenvolvimento conjunto de produtos comerciais, mas a construção colaborativa de ferramentas de apoio à investigação científica.
Os pesquisadores trabalharão inicialmente em dois projetos. O primeiro busca desenvolver um fluxo computacional baseado em inteligência artificial para selecionar, de forma mais rápida e precisa, candidatos a antígenos para vacinas de RNA autoamplificável contra influenza. A proposta integra dados de vigilância genômica, incluindo amostras ambientais de esgoto, informações imunológicas e modelos estruturais das proteínas virais para reduzir o intervalo entre a identificação das variantes circulantes e a definição dos componentes das futuras vacinas.
O segundo projeto pretende construir um atlas global da resistência antimicrobiana, integrando dados microbiológicos, consumo de antibióticos, informações epidemiológicas e variáveis ambientais para permitir o monitoramento da evolução da resistência bacteriana em diferentes regiões do mundo. A plataforma utilizará modelos de inteligência artificial para identificar padrões, prever tendências e oferecer suporte à vigilância epidemiológica e às políticas de uso racional de antibióticos.
“Poucos projetos são tão inovadores quanto a construção de um atlas global da resistência antimicrobiana. É nesse tipo de iniciativa que nossa capacidade de engenharia aplicada a dados de saúde e inteligência artificial realmente faz a diferença — e é esse tipo de colaboração que queremos desenvolver com instituições de pesquisa em todo o mundo”, afirmou Robin Sarfati, diretor de Tecnologia (CTO) da Tekkare.
A aproximação entre o IPSP e a Tekkare foi fortalecida durante a visita oficial da delegação da Região Île-de-France ao Institut Pasteur de São Paulo, realizada em fevereiro deste ano. Na ocasião, a presidente do Conselho Regional da Île-de-France, Valérie Pécresse, liderou uma missão composta por autoridades acadêmicas, diplomáticas e representantes de empresas francesas ligadas à inovação, entre elas a Tekkare. O encontro, promovido e organizado pelo Business France, teve como objetivo ampliar as possibilidades de cooperação científica entre Brasil e França e abriu caminho para a formalização desta colaboração.
“A visita da delegação francesa representou muito mais do que um encontro institucional. Ela criou um ambiente propício para aproximar pesquisadores, universidades e empresas em torno de desafios comuns da saúde global. Esta parceria é um exemplo concreto de como a cooperação internacional pode acelerar a produção de conhecimento e fortalecer a inovação científica”, afirma Paola Minoprio, diretora executiva do IPSP.
Segundo Rúbens Alves, pesquisador responsável pelos projetos desenvolvidos pelo IPSP no âmbito da parceria, a inteligência artificial não substitui a pesquisa científica, mas amplia significativamente sua capacidade.
“Estamos falando de transformar um volume gigantesco de informações dispersas em conhecimento útil para a tomada de decisões científicas. A plataforma nos permitirá integrar dados que hoje estão distribuídos em diferentes bases, identificar padrões que dificilmente seriam percebidos apenas por análises convencionais e acelerar etapas importantes da pesquisa, sempre mantendo o rigor científico.”
Ao longo dos próximos meses, as equipes trabalharão conjuntamente no aprimoramento da plataforma, na integração de novas bases de dados e no desenvolvimento de funcionalidades específicas para infectologia. O acordo também prevê a elaboração de um artigo científico em coautoria entre pesquisadores das duas instituições, consolidando os resultados obtidos durante a colaboração.