Institut Pasteur de São Paulo

Da bancada à liderança: pesquisadores do Institut Pasteur de São Paulo participam de treinamento internacional da EMBO

Da bancada à liderança: pesquisadores do Institut Pasteur de São Paulo participam de treinamento internacional da EMBO


 

Curso prepara líderes de grupos de pesquisa para desafios pouco abordados na formação acadêmica, como gestão de equipes, comunicação, resolução de conflitos e contratação de pesquisadores.

Um pesquisador passa anos aprendendo a formular hipóteses, conduzir experimentos, interpretar resultados e publicar artigos científicos. Mas, quando conquista seu próprio laboratório, assume também funções para as quais quase nunca recebeu treinamento: liderar equipes, contratar pessoas, resolver conflitos, dar feedback e criar um ambiente capaz de produzir ciência de excelência.

Foi justamente para preencher essa lacuna que os pesquisadores Caio Haddad Franco e Robert Andreata Santos, do Institut Pasteur de São Paulo (IPSP), participaram recentemente do EMBO Lab Leadership for Group Leaders, treinamento internacional promovido pela European Molecular Biology Organization (EMBO), uma das mais respeitadas organizações europeias de apoio às ciências da vida. Realizado presencialmente em Leimen, na Alemanha, o curso reuniu líderes de grupos de pesquisa de diferentes países para desenvolver competências de liderança pouco exploradas na formação científica tradicional.

Franco coordena um grupo de pesquisa voltado ao desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas contra infecções causadas por Staphylococcus aureus, espécie bacteriana fortemente associada à resistência antimicrobiana, utilizando plataformas de triagem em larga escala para identificar compostos capazes de atuar sobre mecanismos da célula hospedeira.

Já Santos lidera o Laboratório de Virologia de Roedores Urbanos, que investiga os vírus presentes em ratos que habitam grandes centros urbanos para compreender seu potencial zoonótico e contribuir para a vigilância de doenças emergentes.

“O momento em que um pesquisador deixa a bancada e passa a liderar um laboratório é uma mudança enorme. De repente, além da ciência, você precisa administrar pessoas, orçamento, tempo, conflitos e decisões estratégicas. A gente aprende tudo isso na prática, mas quase nunca recebe um treinamento específico”, afirma Franco.

A proposta do curso é adaptar ferramentas consolidadas de liderança utilizadas no ambiente corporativo para a realidade da pesquisa científica, abordando temas como formação de equipes, inteligência emocional, comunicação, feedback, gestão de conflitos, processos de contratação e desenvolvimento de pessoas. Durante quatro dias de atividades, os participantes discutem casos reais vividos em seus laboratórios e trabalham soluções de forma prática e colaborativa.

Segundo Santos, esse formato é justamente o diferencial do treinamento.

“Não é um curso baseado apenas em palestras. Nós levamos situações reais vividas nos nossos laboratórios e trabalhamos essas experiências em dinâmicas, discussões e exercícios. Você aprende ferramentas que consegue aplicar imediatamente no dia a dia.”

Desafio comum – Durante a imersão, pesquisadores de áreas tão distintas quanto biologia, medicina, matemática, física, astronomia e indústria compartilharam experiências e descobriram que enfrentavam praticamente os mesmos desafios.

Ao contrário do que imaginava antes de viajar, Franco afirma que o maior aprendizado não foi descobrir ferramentas inéditas, mas perceber que algumas práticas já adotadas em seu laboratório poderiam ser significativamente aprimoradas.

“Eu fui esperando aprender ferramentas novas. Mas percebi que algumas práticas que eu já utilizava poderiam ser muito mais eficientes. Um exemplo foi entender melhor como delegar responsabilidades. Não basta simplesmente delegar; é preciso identificar o que realmente faz sentido ser delegado e como fazer isso da forma correta.”

Para Santos, um dos temas mais marcantes foi a construção de um ambiente psicologicamente saudável sem abrir mão da produtividade.

“O curso mostra que um laboratório precisa ser um ambiente em que as pessoas se sintam confortáveis para discutir problemas, admitir erros e propor soluções. Mas isso não significa ausência de cobrança. O desafio é encontrar um equilíbrio entre acolhimento e responsabilidade.”

Outro aspecto discutido foi a contratação de novos integrantes para os grupos de pesquisa. Os participantes aprenderam técnicas para estruturar entrevistas, reduzir vieses inconscientes na seleção de candidatos, envolver outros membros do laboratório no processo de recrutamento, gerar empoderamento em diferentes níveis hierárquicos e fortalecer a cultura organizacional desde a chegada de novos pesquisadores.

Estratégia institucional – A participação no treinamento também revela uma estratégia do Institut Pasteur de São Paulo para fortalecer a liderança científica de seus grupos de pesquisa.

No caso de Caio Haddad Franco, selecionado no programa internacional G4, criado por meio de uma parceria entre o Institut Pasteur, a FAPESP e a USP para atrair jovens líderes científicos ao Brasil, a participação no treinamento já estava prevista entre os benefícios oferecidos pelo programa. O modelo financia projetos durante quatro anos e inclui ações voltadas ao desenvolvimento de futuras lideranças científicas.

Já Santos, contemplado pelo programa Jovem Pesquisador da FAPESP, viabilizou sua participação por meio do financiamento “Educational and Training Grant” da Global Virus Network (GVN), que é fornecido como suporte para a formação da próxima geração de virologistas.

“O curso tem um reconhecimento internacional muito forte. Além do aprendizado, ele também passa a fazer parte da formação do pesquisador e é valorizado por diversas instituições de pesquisa e agências de fomento”, afirma.

O investimento do IPSP nesse tipo de formação já beneficiou outros pesquisadores da instituição, como Luiz Gustavo Góes, coordenador do grupo de Eco-epidemiologia, diversidade e evolução de vírus emergentes, e Rúbens Alves, responsável pelo grupo de Vigilância Genômica e Inovação em Vacinas, ambos também participantes do treinamento da EMBO.

Embora atuem em áreas científicas bastante distintas — resistência antimicrobiana, vigilância de vírus em roedores urbanos, vírus presentes em morcegos e inovação em vacinas contra influenza —, os quatro pesquisadores tinham um desafio comum: transformar laboratórios recém-criados em equipes capazes de produzir ciência de excelência.

Para Franco esse talvez seja o principal legado do treinamento.

“Quando um líder aprende a se comunicar melhor, organizar a equipe, desenvolver as pessoas e criar um ambiente saudável de trabalho, quem ganha é a ciência. Laboratórios mais bem estruturados produzem pesquisas melhores.”