Institut Pasteur de São Paulo

Infecções virais sutis no cérebro desafiam o diagnóstico e impulsionam novas terapias

Infecções virais sutis no cérebro desafiam o diagnóstico e impulsionam novas terapias


 

Formas menos evidentes de neuroinfecção podem causar danos cognitivos duradouros e exigem estratégias que vão além da eliminação do agente infeccioso.

Como patógenos com baixa presença no cérebro conseguem provocar alterações persistentes no funcionamento neuronal? Estudos recentes indicam que esses microrganismos podem interferir diretamente na comunicação entre neurônios e afetar a atividade cerebral mesmo sem sinais inflamatórios evidentes — um achado que amplia a compreensão sobre doenças que atingem o sistema nervoso. Ao mesmo tempo, ferramentas baseadas em inteligência artificial começam a abrir caminhos para abordagens terapêuticas que vão além do combate ao agente infeccioso, com foco na reversão de alterações funcionais observadas em modelos experimentais.

Esses avanços foram apresentados durante um seminário realizado no Institut Pasteur de São Paulo (IPSP) no dia 26 de maio pelo pesquisador Raphael Gaudin, do Institut de Recherche en Infectiologie de Montpellier (IRIM), vinculado ao Centre National de la Recherche Scientifique e à University of Montpellier. Líder da equipe Membrane Dynamics of Viruses (MDV), Gaudin investiga as interações entre agentes virais e o sistema nervoso central, bem como seus efeitos funcionais, em colaboração com o grupo de Modelagem de Doenças do Sistema Nervoso do IPSP, liderado pela professora Patricia Beltrão-Braga.

Formas clínicas – As neuroinfecções podem variar desde quadros agudos, caracterizados por intensa replicação e resposta inflamatória, até manifestações mais discretas, com baixa carga viral e reação imune limitada. Segundo Gaudin, são justamente essas apresentações mais sutis que representam um desafio maior: “esses distúrbios neurocognitivos são mais difíceis de detectar, mas podem ter impacto significativo a longo prazo”.

Esse padrão tornou-se mais evidente durante a pandemia de COVID-19, mas não é exclusivo do SARS-CoV-2. Segundo Gaudin, alterações neurocognitivas persistentes também já foram observadas em infecções por vírus como HIV, Zika e West Nile, indicando que esse tipo de impacto pode ser mais amplo do que se imaginava.

“Observamos que o agente infeccioso pode se localizar de forma bastante restrita no tecido cerebral”, afirmou o pesquisador. Essa distribuição localizada, frequentemente sem inflamação associada, ajuda a explicar a manutenção de sintomas cognitivos mesmo após a fase aguda da infecção.

Disfunção e terapias – No nível celular, um dos principais efeitos dessas infecções é a alteração da dinâmica sináptica. Em modelos de organoides cerebrais, a equipe identificou mudanças tanto na organização quanto no desempenho das conexões neuronais. “Observamos que o patógeno pode ficar retido nas sinapses, o que interfere diretamente nessa atividade”, explicou Gaudin.

Essas alterações se refletem nos padrões elétricos do cérebro, utilizados como indicadores da comunicação neuronal. Para analisar esses sinais, os pesquisadores empregam sistemas de inteligência artificial capazes de comparar tecidos saudáveis e infectados, além de testar possíveis intervenções. “A ideia é prever se uma abordagem terapêutica consegue restaurar o funcionamento para um padrão mais próximo do normal”, afirmou. O uso de modelos experimentais mais representativos da fisiologia humana, como culturas de tecido cerebral, tem permitido observar esses efeitos em contextos mais complexos.

Além dos agentes amplamente estudados, Gaudin destacou o potencial papel de microrganismos ainda pouco investigados. “A hipótese é que patógenos clinicamente negligenciados, como os ortobunyavírus, possam afetar sutilmente a cognição sem serem detectados pela vigilância clínica tradicional”, afirmou. Transmitidos por mosquitos, esses vírus pertencem a um grupo de arbovírus neurotrópicos que circulam amplamente em diversas regiões do mundo, embora ainda sejam pouco estudados.

Esse cenário reforça uma mudança importante no campo: o desenvolvimento de terapias que não apenas eliminem o agente infeccioso, mas também revertam seus efeitos no cérebro. “Estamos caminhando para uma abordagem que considera não só a presença do patógeno, mas também suas consequências funcionais no sistema nervoso”, concluiu.